Marco Aurélio Nogueira: Os marqueteiros e a narrativa das delações

De tudo que pude assistir, ler e ouvir sobre os depoimentos de Mônica Moura ao MPF, o que mais me chamou atenção foram a frieza e a descontração da moça.

Ela revelou detalhes sórdidos, tramoias escusas e transações milionárias como se estivesse repetindo a receita de um bobó de camarão. Nenhuma vacilação, nenhum gaguejo, nenhum tremor de mãos, completa ausência de tiques nervosos ou boca seca. Nenhum freio ético ou alguma dúvida moral, também. Nada. Ao contrário, sobraram articulação verbal, nonchalance, minúcias sombrias, comprovantes de passagens, de pagamentos, telefonemas e reuniões. Até uma conta de email compartilhada por ela e Dilma veio à tona, com o teor das mensagens trocadas, as datas, as circunstâncias, as motivações. É algo impressionante, arrasador.

Muitas análises estão sendo feitas, evidentemente. Há uma guerra em torno das narrativas, e uma penca de gente tem dado combustível para a versão de que delações são “alcaguetagem” e “traição”, e portanto não podem ser levadas a sério. Outros argumentam que Dilma não pode ter participado de esquemas corruptos porque continua pobre, como se todo corrupto tivesse de ficar rico e não pudesse ser tão somente um agente para o enriquecimento de terceiros, ou para que terceiros saqueiem dinheiro público indevidamente. E há até aqueles que dizem que marqueteiros mentem em campanhas e, portanto, também mentirão em outras situações.

Diga-se o que for, fale-se que Mônica só fez o que fez para salvar a pele e proteger o que restará do patrimônio, que ela é “falsa e fantasiosa”, cínica e hipócrita, mas será difícil que se diga que seus depoimentos não foram “reveladores”, ajudando a complicar o que já é bastante complicado.

A esta altura, declarar, como fez a assessoria de Dilma, que João Santana e Mônica “prestaram falso testemunho e faltaram com a verdade em seus depoimentos, provavelmente pressionados pelas ameaças dos investigadores”, é como dar tiros com balas de festim. Não é razoável. A atitude só faz prolongar um estado de sofrimento e anuncia um desfecho trágico.

Muito mais inteligente seria abrir outra estrada: reconhecer que se foi com sede demais ao pote, que se pecou por arrogância e distração, que houve sim erros graves de conduta, dar a mão à palmatória, pedir desculpas e tentar reconstruir a vida. Coisa, aliás, que Lula foi convencido a fazer em 2006, logo após a crise do mensalão, por ninguém menos que João Santana.

João e Mônica salvaram Lula em 2006, inventaram Dilma em 2010 e fizeram dela um “coração valente” em 2014. Não deixa de ser patético que sejam justamente eles a jogar uma das pás de cal que poderão enterrar suas criaturas.

É preciso descartar a ideia de que tudo o que rola na Lava Jato é uma armação da “direita”, fruto do egoísmo golpista das elites, da invenção da mídia, da perseguição política e da luta de classes contra Lula. Não é eficaz ficar repetindo que não há provas nem evidências de que algum ato desonesto foi feito. A cada dia menos gente acredita nisso.

Aqueles que se solidarizam hoje com o PT ganhariam muito mais se reconhecessem que a esquerda também pode roubar e corromper, composta que é de humanos, não de santos ou deuses.

O ex-ministro Gilberto Carvalho ensaiou ir nessa direção, quando declarou ao jornalista Bernardo Mello Franco, da Folha, que “Lula nunca quis saber de dinheiro” e, como qualquer outro candidato, “não pode fazer tudo” e sempre “espera que ninguém faça bobagem”, acrescentando:  caixa dois “é um erro gravíssimo que nós cometemos. Seguimos um padrão que condenávamos”. Se é assim, como então dizer que João, Mônica, Marcelo, Duque, Barusco e Léo mentiram?

O esquema que vem sendo aos poucos revelado, no bojo da Lava Jato (mas não só), repôs muitas tradições brasileiras, algumas péssimas, como o uso abusivo e intensivo do caixa 2, e outras bastante discutíveis, como é o caso do modelo de capitalismo de Estado reiterado durante os governos petistas, com suas estatais, suas renúncias fiscais, seus financiamentos para o grande capital, sua mixórdia de anéis burocráticos e laços entre grupos privados e instituições públicas.

Como escreveu o jornalista Luiz Carlos Azedo, “esse modelo não serviu apenas para a concentração de capital; foi alavancado para o financiamento dos partidos e o enriquecimento pessoal de seus operadores, conforme a Operação Lava-Jato vem revelando. A velha cultura patrimonialista e a tradicional utilização de caixa dois eleitoral serviram de caldo de cultura para alavancagem do projeto de poder de Lula, em níveis inacreditáveis, com o agravante de que o sistema eleitoral e a legislação partidária favoreceram o fortalecimento e hegemonia das legendas que ocupavam as posições-chave dessa relação entre Estado e empresas”.

É a problematização disso tudo que estamos assistindo com as delações.

*Marco Aurélio Nogueira é professor Titular de Teoria Política e ex-diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais-IPPRI da UNESP


Fonte: https://marcoanogueira.pro/os-marqueteiros-e-narrativa-das-delacoes/

Sobre o(a) autor(a)

Internacionalista formado pela Unesp e assessor de comunicação da FAP

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