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ENTREVISTA ESPECIAL - ROBERTO KANT DE LIMA
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    Foto: Divulgação  tanto, ainda sujeita a certos controles, como considerar ilegal a posse e o porte de arma
                     sem licença. Isso poderá não ser mais possível no futuro. E quem tem mais interesse nisso
                     não são os “cidadãos de bem”, mas criminosos profissionais, completa.
                       Sobre temas como o papel do Judiciário, a Lava Jato e as denúncias da Vaza Jato, Roberto
                     Kant avalia que “não tem sido fácil se conceber, juridicamente, no Brasil, a visão republica-
                     na da igualdade perante a lei, e do Judiciário como garantidor desses direitos ditos civis”.
                     De acordo com o antropólogo, “nossa independência encontrou um país imperial, de brasi-
                     leiros nobres e plebeus e imenso contingente de escravos, que não eram plenos sujeitos de
                     direito, juridicamente chamados “semoventes”. “Todos se consideram como operadores de
                     justiça. Quer dizer, cada um acha que está fazendo justiça, embora, muitas vezes, operando
                     contraditoriamente. Mas, do seu ponto de vista, seja hierárquico ou igualitário, a justiça
                     está sendo feita. E essa falta de diálogo, articulação e de consenso é que é o problema”,
                     completa.
                       Confira, a seguir, trechos da entrevista do antropólogo Roberto Kant à Revista Política
                     Democrática Online.

                       Revista Democrática Online (RD) – A legis-  citiva de Lula. Historicamente, desde o Império, a
                     lação ora sob exame no Congresso sobre a  população brasileira tem estado dividida em sta-
                     aquisição e o porte de armas deverá fortale-  tus jurídicos desiguais. Nobres, plebeus e semo-
                     cer a segurança pública ou, ao contrário, pro-  ventes – esses últimos, os escravos, equiparados
                     mover o faroeste no Rio de Janeiro?      aos animais domésticos ou domesticados – es-
                       Roberto Kant (RK) – O Rio não vai se trans-  tavam todos sujeitos ao processo penal, embora
                     formar num faroeste; já é. Vivemos um pro-  de maneira desigual. A política de justiça criminal
                     blema para cuja solução não se tomaram as   atingiu mais os segmentos desfavorecidos da
                     devidas providências. São as milícias, mistu-  população. Basta lembrar que a maior parte das
                     ra de operadores institucionais, da polícia e   pessoas presas – muitas sem sentença definitiva
                     pessoas que já saíram ou foram expulsas da   – é de pequenos usuários de drogas que são en-
                     polícia. A legislação vai, em minha opinião,   carcerados como se fossem traficantes. A polícia,
                     legalizar esse faroeste, permitir que as pes-  com essas prisões, a maioria em flagrante e, por-
                     soas tenham mais armas e munição em casa,   tanto, sem trabalho investigativo da Polícia Civil,
                     legalmente. Vai fortalecer a ideia de um po-  tenta mostrar trabalho a serviço da sociedade,
                     der não institucional. Trata-se, no fundo, de   mantendo a ordem; só que os capitalistas do cri-
                     legalizar uma situação que, pelas leis atuais,   me e os grandes corruptores seguem intocáveis.
                     ainda é considerada de competência federal.   A partir do “Mensalão”, houve uma pri-
                     E, portanto, ainda sujeita a certos controles,  meira tentativa de estender o poder de pu-
                     como considerar ilegal a posse
                     e o porte de arma sem licença.
                     Isso poderá não ser mais pos-                                                                Foto: Divulgação
                     sível  no  futuro.  E  quem  tem
                     mais interesse nisso não são
                     os “cidadãos de bem”, mas
                     criminosos profissionais.
                       RD:  O  embate  político
                     e ideológico travado pela
                     internet parece ter trans-
                     posto para o plano do Ju-
                     diciário posições políticas
                     extremadas. Como o sr. vê
                     essa conjunção entre justi-
                     ça e política?
                       RK: Em 2016, publiquei com
                     Glaucia Mouzinho um artigo na
                     Revista Dilemas, de análise desse
                     fenômeno, desde a prisão coer-




       JULHO 2019                               REVISTA POLÍTICA DEMOCRÁTICA                                    9
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