Uma cidade localizada nos trópicos, mas onde era possível encontrar linhos, sedas e arremates europeus para a confecção de roupas de pessoas da elite, a qual adotava hábitos, costumes e modas parisienses. Essa cidade é Belém do final do século XIX até o início do século XX, quando vivia a sua Belle Époque e tinha Paris como referência de modernidade e desenvolvimento.
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A partir de uma pesquisa iniciada em 1999, para sua dissertação de mestrado, Luiz Tadeu da Costa, professor da Faculdade de Museologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), começou a estudar os acervos do Museu de Arte de Belém (MABE) e do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG), especialmente as telas e fotografias que retratam Belém entre as últimas décadas do século XIX e as duas primeiras do século XX. Parte da pesquisa, intitulada "Iconografias da Belle Époque de Belém: Acervos do MABE e do MPEG", foi publicada em forma de artigo no livro Belém do Pará: História, Cultura e Sociedade. O livro, organizado pela professora Ligia Simonian, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), agrega textos apresentados no colóquio com o mesmo nome.
No século XIX, houve uma fixação nos belenenses por esse sonho de uma cidade esplendorosa e próspera, pela ideia de modernidade e pela utopia da Idade de Ouro de Belém. A cidade passa por um processo de representação quando começa a importar modas e "trazer" Paris para a Amazônia, com seus coretos e ruas largas. De acordo com o professor, a representação "é a projeção de algo, quase uma holografia. É a imagem em si, praticamente". Num segundo momento, começa a simulação, que é a constituição de algo a partir de referências. "É uma espécie de 'faz de conta' em que eu me visto daquilo. As pessoas começam a absorver aquele estilo de vida, elas começam a viver como se estivessem em Paris", explica.
Cidade com ruas largas, praças, arborização e teatro
O intendente municipal à época, Antônio José Lemos, contratou pintores renomados nacionalmente, como Antônio Parreiras, Benedito Calixto e Teodoro Braga, para retratar situações que reforçavam o discurso político-administrativo dele e, assim, constituir a coleção fundante da Pinacoteca Municipal, hoje, MABE. Segundo Luiz Tadeu da Costa, "ele 'edita' uma cidade, faz um recorte da realidade usando lugares que iam ao encontro do desenvolvimento e da prosperidade. Ruas largas, praças, arborização, teatro, bosque tinham esse significado".
Essa visão da cidade de Belém, a qual está presente nas telas do MABE, é chamada de "olhar nativo" pelo professor Luiz Tadeu da Costa em sua dissertação. Este olhar faz um paralelo com o que ele chama de "olhar estrangeiro", aquele que está presente nas fotografias do MPEG. Segundo o professor, o acervo iconográfico do MPEG é pouco conhecido e pouco estudado, porque raramente estiveram em exposições. Essas imagens revelam, sob a ótica de fotógrafos naturalistas estrangeiros, outra cidade e outras populações da Amazônia, as quais tinham sido esquecidas nas telas encomendadas por Antônio Lemos, como o índio. "O discurso estrangeiro busca o exótico, busca, na cidade, aquilo que talvez não existisse em nenhum outro lugar", afirma Luiz Tadeu da Costa.
A cidade retratada nas fotografias naturalistas é uma cidade em processo, a qual ainda está se arrumando. Diferentemente dos artefatos produzidos e coletados pela elite burguesa, os quais representam uma cidade já desenvolvida, como uma "Paris dos trópicos". "É como se eles retratassem uma realidade que a intendência municipal não queria mostrar", explica o professor. A partir desse cruzamento de diferentes visões sobre a cidade é que se elaboram reinterpretações da história.
Discurso metonímico é comum no início do século XX
As duas visões não retratam a realidade absoluta daquela época, mas ajudam a refletir não só sobre o passado, mas também sobre a época atual, já que muita coisa não é falada ou sofre uma edição, uma estetização. Para o professor Luiz Tadeu da Costa, a pesquisa é uma provocação para que as pessoas possam refletir sobre que medida participam desse processo de esquecimento. "A memória é seletiva. Individualmente, nós também fazemos isso, por motivos e interesses distintos", explica o professor, para quem a relação entre memória e esquecimento é algo natural, uma conversa frequente.
As figuras de linguagem também são abordadas na pesquisa do professor Luiz Tadeu da Costa. Segundo ele, existe uma cultura, fruto do século XX, de ser metonímico, ou seja, de tomar a parte pelo todo. Essas obras, principalmente as telas do MABE, vão ao encontro do discurso da modernidade metonímica, já que se toma aquela parte da cidade como a história de fato.
Aquele é o imaginário construído sobre o que era Belém no final do século XIX – uma pequena Paris. Pequenos pedaços são tomados como o todo e qualquer coisa que seja divergente a isso, como as fotografias do MPEG, pode parecer muito estranha, como uma cidade que ninguém viu ou mostrou antes.
Como símbolo da modernidade, é importante que o museu represente a vida social, cultural, econômica e política daquele lugar e contextualize de que maneira aqueles elementos estão relacionados com o mundo. "A articulação do museu é o passado, o presente, mas, sobretudo, o futuro. O grande objeto do museu é a preservação da história, da memória. Se é preservar, isso é futuro", avalia o professor.
Visitação dos acervos
Museu de Arte de Belém – 3ª a 6ª feira, das 10h às 18h. Sábados, domingos e feriados, das 9h às 13h. Mais informações: mabe@belém.pa.gov.br e (91) 3114-1026
Museu Paraense Emílio Goeldi – 3ª a domingo, das 9h às 17h. Mais informações: (91) 3219-3313