TPL_HOMEFAP_SEARCH

Webmail

Ecofeminismo

por Nelson Soares Dos Santos
Nelson Soares Dos Santos
Operação Monte Carlo, Marconi Perillo e a Credibilidade do Estado Democrático de
User não está online
em Fev 05 em Internet 1 Comentário

O papel da mulher não é e não pode ser idêntico ao do homem pois são seres diferentes e não há supremacia de um sobre o outro.

No entanto o papel da mulher também não pode ser focalizado em aspectos mais desvalorizados como empregadas domésticas e apoios afetivos para sues maridos e filhos. Haja vista que o homem já não é capaz de ser o único provedor da casa.

Texto divulgado pela  Ana Souto, uma das dietoras da FAP em  Goiás, a propósito de nossas discussões sobre Educação, Cidadania e Sustentabilidade que será realizado nos dias 13 e 14 de abril de 2012.

Ecofeminismo

A separação e diferenciação entre o homem e a natureza é observada em vários momentos distintos da história. Essa ideia de distinção, decorre da errônea interpretação de que o homem é separado e superior a natureza e que essa, existe para servi-lo.

Vários fatores epistemológicos nos levam a isso, entre eles podemos salientar a nossa formação cristã, que é bastante antropocêntrica, e nos ensinou que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança isto é, bem acima dos animais e pouco abaixo dos anjos. Além da preeminência do homem sobre a natureza podemos vislumbrar, no cristianismo, a pujança também do homem sobre a mulher quando essa é feita a partir de sua costela.

Existe uma ideia muito difundida que é a da “mãe natureza”. Por vezes eu me recordo dos meus estudos no primário, o qual sempre no dia da árvore a professora nos pedia para produzir um texto ou elaborar um cartaz sobre a importância da natureza, Essa frase era clichê em nossos ingênuos trabalhos, A natureza é importante, porque é a nossa mãe! Salve a mãe natureza.

Essa máxima ainda muito repetida quando falamos da importância da preservação da natureza nos indica o tipo de relação existente entre o homem e natureza, nos aponta para valores ideológicos implícitos na máxima que vão contra os princípios de igualdade entre ambos, mas de subjugação da natureza pelo homem.

A ideia de “mãe natureza” surge com Francis Bacon, e não tem nada de positivo. O sentido da palavra mãe é aquela que tudo dá sem esperar nada em troca, é aquela que existe para servir da melhor forma aos seus filhos. Assim, quando falamos de mãe natureza, o que está implícito é o entendimento de que a natureza existe para nos servir, ser explorada sem esperar nada em troca, como a mulher mãe. A ideia cristã de mãe é aquela que se resigna para a felicidade do filho e se realiza muito mais em sua cria do que em si mesma.

Essa concepção defendida por Francis Bacon, de que a natureza deve ser dominada pelo homem para servi-lo da melhor maneira foi estendida a mulher que deve ser dominada para servir ao homem. Tal concepção já existia em Platão, Aristóteles, Maquiavel entre outros..

Quanto a existência de diferenças entre homens e mulheres isso é indubitável, a diferença sexual, é encontrada na natureza e é o primeira grande sistematização do mundo.

Assim as diferenças existem e em larga medida isso tem gerado historicamente intolerância e violência. Violência do homem contra a natureza, contra as mulheres, de homens sobre outros homens, quando se crê que um povo é superior a outro.

Quando um grupo subjuga o outro e o segundo tem a chance de revidar vem a violência que parece legitimar a violência. Um exemplo que podemos destacar é o nazismo, quando Hitler infligiu humilhações ao povo judeu. E hoje a agressividade dos judeus sobre os palestinos assemelham as perseguições que sofreram dos nazistas.

Expostas essas reflexões acerca da subjugação que o homem comete sobre a natureza e a mulher, uma vez que a compreensão de natureza e a condição da mulher trazem matizes que se aproximam. Surge a necessidade em aceitar as diferenças o que nos injeta uma dose de tolerância que nos enriquece o espírito e nos abre a universalidade.

Emanuel Levinas em Totalidade e Infinito nos diz que a primeira forma de violência está em pretender compreender o outro. Pois segundo o filósofo, cada homem é único e infinito. Assim, como cada rosto é diferente do outro, nós em essência somos únicos e infinitos. Isso implica que cada homem não é igual a nenhum outro e dentro de si experimenta a finitude, assim quando quero compreender o outro é impossível. Pois por mais que eu me esforce, o outro é um universo diferente do meu e infinito que não poderá ser abarcado pela minha universalidade e finitude. Então para que eu possa romper o limite de minha infinidade, devo simplesmente aceitar, ouvir o outro e assim me realizar no outro.

Um dos traços fundamentais de qualquer forma de organização na natureza ou nos sistemas informacionais, é a aptidão para transformar diversidade em unidade, sem anular a diversidade, e também para criar diversidade na e pela unidade segundo Edgar Morim.

A partir de 1970 surge uma corrente de pensamento intitulada ecofeminismo. O ecofeminismo propõe superar a dicotomia homem/natureza como também sustenta Edgar Morin. Além disso, investiga as relações entre a dominação da natureza e da mulher. O termo foi usado pela primeira vez por Françoise d´Eauboune, uma francesa e feminista, que defende a ideia de que o ambiente é feminino e o combate a exploração da natureza levará a libertação da mulher. “ O ecofeminismo é a teoria que busca o fim de todas as formas de opressão. Relaciona as conexões entre as dominações por raça, gênero, classe social, dominação da natureza, do outro - a mulher, a criança, o idoso, o índio. Identificam-se vários Ecofeminismos que acordam quanto fim dos "ismos" de dominação, sejam eles históricos, simbólicos, casuais, literários, políticos, religiosos, étnicos e buscam igualmente o resgate do Ser. Um convívio sem dominante e dominado, onde há complementação e nunca exploração.” A ética ecofeminista repudia todas as formas de dominação e discriminação, fundamentados na não aceitação da diferença, incluindo grupos étnicos, homossexuais e outras minorias. (warren, 1987, 1994)

O feminismo por si só instauram o paradoxo para simplificação ao reivindicarem a igualdade com os homens sendo diferentes e os ecologistas o fazem ao reivindicarem a proximidade humana da natureza na busca de solução para a crise ambiental. Essa visão simplista de ambos devem ser superadas. A visão de Edgar Morin caminha para a superação dessa aporia. “A natureza é aquilo que liga, que articula e faz comunicar profundamente o antropológico, o biológico e o físico, também em sua dimensão cósmica” (p. 30)

A crise ecológica que temos experimentado nos leva a uma nova mentalidade que modifica efetivamente o tratamento da questão da diferença.

Em linhas gerais o ecofeminismo identifica o gênero feminino com a natureza, o pensamento econômico ocidental vê as mulheres e a natureza como recursos naturais que existem para ser explorado para a acumulação do capital; segundo o ecofeminismo a cultura se identifica com o homem e a mulher com a natureza e existe assim, uma supremacia da cultura sobre a natureza. Assim quando a cultura não se sobrepuser a natureza o homem não se sobreporá a mulher; as políticas científicas e tecnológicas tem se desenvolvido no sentido de estimular as diferenças de gênero e exclui a mulher do mundo do conhecimento. Ficando a mulher a área da natureza para atuar e agir enquanto o homem a modifica e altera.

Isso pode ser visto na chamada “segunda onda do feminismo” da década 60 que eclodiu na Europa e EUA o qual se engajou em movimentos pacifistas, antimilitaristas e antinucleares que culminou nos movimentos ambientalistas que conhecemos hoje.

Percebemos assim, que a preocupação da defesa da exploração da natureza surge dentro de um movimento de defesa da exploração das mulheres.

O senso comum, imbuído de ideologias machistas e dominadoras, ressalta que ao contrário dos homens as mulheres são sonhadoras, fracas e moralmente melhores. Isso se deve ao fato de que nesses movimentos questionavam a dicotomia trabalho intelectual / manual, entre o público / privado, espaços produtivos / reprodutivos, físico/mental, racional/intuitivo, emocional/objetivo Além disso, traziam a ideia de que a riqueza material muitas vezes era acompanhada da pobreza material. Buscavam resgatar a importância da vida simples em que a pobreza não se identificava com pobreza e privação. Assim surgiu a equivalência dos ideias feministas e da sociedade ecológica.

Essa equivalência das reinvindicações feministas e as necessidades ecológicas só se separaram quando o movimento feminista começa a buscar a igualdade com os homens em direitos civis, ingresso na política igualdade de trabalho remuneração equivalente.

Assim, o ecofeminismo pretende ver as questões ambientais e humanas de maneira holística.

Essa visão holística é também defendida por Frijof Capra em Ponto de mutação e a Teia da Vida.

“Além da ecologia profunda, há duas importantes escolas filosóficas de ecologia, a ecologia social e a ecologia feminista, ou "ecofeminismo". Em anos recentes, tem havido um vivo debate dos méritos relativos dessas três escolas. Parece-me que cada uma delas aborda aspectos importantes do paradigma ecológico e, em vez de competir uns com os outros, seus proponentes deveriam tentar integrar suas abordagens numa visão ecológica coerente. A percepção ecológica profunda parece fornecer a base filosófica e espiritual ideal para um estilo de vida ecológico e para o ativismo ambientalista. No entanto, não nos diz muito a respeito das características e dos padrões culturais de organização social que produziram a atual crise ecológica. É esse o foco da ecologia social. O solo comum das várias escolas de ecologia social é o reconhecimento de que a natureza fundamentalmente antiecológica de muitas de nossas estruturas socioeconômicas está arraigada no que Riane Eisler chamou de "sistema do dominador" de organização social. O patriarcado, o imperialismo, o capitalismo e o racismo são exemplos de dominação exploradora e antiecológica. O ecofeminismo poderia ser encarado como uma escola especial de ecologia social, uma vez que também aborda a dinâmica de dominação social dentro do contexto do patriarcado. Entretanto, sua análise cultural das muitas facetas do patriarcado e das ligações entre feminismo e ecologia vai muito além do arcabouço da ecologia social. Os ecofeministas veem a dominação patriarcal de mulheres por homens como o protótipo de todas as formas de dominação e exploração: hierárquica, militarista, capitalista e industrialista. Eles mostram que a exploração da natureza, em particular, tem marchado de mãos dadas com a das mulheres, que têm sido identificadas com a natureza através dos séculos. Essa antiga associação entre mulheres e natureza liga a história das mulheres com a história do meio ambiente, e é a fonte de um parentesco natural entre feminismo e ecologia. Consequentemente, os ecofeministas veem o conhecimento vivencial feminino como uma das fontes principais de uma visão ecológica da realidade.

Em 1970 foi atribuída a mulher a responsabilidade do controle da natalidade. No entanto, isso envolve complexos aspectos de dominação da mulher como sexismo, racismo e opressão e fatores culturais. Pois mesmo em áreas de dificuldades de higiene, saúde, carência de alimentos elas continuam com uma grande prole.

Vejamos:

Sexismo: ao analisar o crescimento populacional não se pode desconsiderar a opressão que as mulheres sofrem nas sociedades patriarcais. Uma das consequências da opressão feminina é a ausência de poder das mulheres para impor sua vontade sexual. Muitas mulheres são incapazes física e psicologicamente, de recusar sexo aos seus parceiros masculinos. Por outro lado o prestígio social masculino está associado à capacidade reprodutiva, ao poder sexual e a virilidade. (Di Ciommo p. 77)

Racismo e opressão: a opressão sobre as mulheres no que se refere a liberdade reprodutiva se intensifica entre os negros, pobres e pertencentes ao Terceiro Mundo. Devido as pressões econômicas as crianças são vistas como uma força de trabalho.

Fatores culturais: as normas culturais podem ter grande poder sobre a aceitação ou não de métodos contraceptivos.

Percebemos a relação ambientalismo e feminismo. Além disso, passaremos a analisar a contribuição da mulher na educação ambiental.

É sabido por todos que a sobrevivência da humanidade e das diversas espécies animais e vegetais faz-se necessário a conscientização e mudanças de atitudes em todas as áreas científicas, culturais, econômicas e políticas.

Estamos em um momento no qual o nosso pensamento, nossos pensamentos e nossos valores passam por um processo de revisão diante das tendências que valorizam a cooperação, a conservação a qualidade e a associação.

A corrente ecofeminista pretende refutar as formas de submissão aos padrões de um sistema que levou em consideração “o progresso econômico e tecnológico ilimitado, onde os valores patriarcalistas imperaram por muito tempo”. (1999, p.19)

Além dos motivos citados anteriormente o que hoje leva a aproximação entre feminismo e ambientalismo é a busca da qualidade de vida. Todos as políticas de educação ambiental perpassa pela mulher e as crianças. Independentemente da classe social a educação dos filhos majoritariamente pertence a mulher. A mulher influencia diretamente nas mudanças de hábitos. É ela que escolhe o que comprar, oque comer, como preparar, etc. Por outro lado, ela não decidi como se deve explorar a natureza ou produzir um alimento. (ex. Os cursos sobre separação do lixo é para mulheres, e isso implica em mais trabalho para ela)

O ecofeminismo atualmente, entende que para que alcancemos uma vida ecologicamente saudável devemos buscar a harmonia dos ditos opostos. Como os “princípios masculino e feminino no pensamento, na cultura e na natureza, em um processo inverso ao que presidiu o predomínio da ordem científica racional cartesiana ... O modelo proposto pelo ecofeminismo pretende incluir um relacionamento igualitário entre homens e mulheres que se reflita na partilha do trabalho doméstico e do cuidado das crianças, maior autonomia e segurança da relação com o próprio corpo e com o processo reprodutivo, maior possibilidade de participação na esfera pública não apenas como trabalhadoras, mas como cidadãs e ativistas políticas” (1999, p. 20)

Finalmente podemos dizer de acordo com Morim que a sociedade deve ser vista o todo em função das partes e as partes em função do todo. Esse é o novo paradigma que se afasta do reducionismo.

Segundo alguns ecofeministas as mulheres sempre tiveram uma consciência ecológica no sentido de preservar animais, plantas e os demais seres vivos.

O papel da mulher não é e não pode ser idêntico ao do homem pois são seres diferentes e não há supremacia de um sobre o outro.

No entanto o papel da mulher também não pode ser focalizado em aspectos mais desvalorizados como empregadas domésticas e apoios afetivos para sues maridos e filhos. Haja vista que o homem já não é capaz de ser o único provedor da casa.

De acordo com Celia Regina algumas mulheres tiveram a oportunidade de desempenharem o seu real papel na sociedade. No momento de pós-guerra por volta da década de sessenta e setenta as mulheres “ tiveram o papel de serem a Voz do coração, do amor, da consciência, compaixão, sensibilidade, sensualidade, natureza, percepção intuitiva não-linear – o Outro, e foram amadas por isso, por serem o Outro que os homens buscavam e necessitavam para voltar, para retornar ao lar”. (1999, p. 79)

Mas infelizmente isso foi cooptado pelos homens e com elas ficou apenas o que era considerado mais desvalorizado na hierarquia social.

Referências bibliográficas

CIOMMO, Regina Célia Di. Ecofeminismo e Educação Ambiental. Ed. Universidade de Uberaba , São Paulo 1999.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários a educação do futuro. São Paulo - Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2001

SILIPRANDI, Emma. Ecofeminismo: Contribuições e limites para a abordagem de políticas ambientais. Agroel. E Desenv. Rur. Sustent., Porto Alegre, v. 1, n1, jan./mar.2000.

Tags: Sem Tag
Cliques: 174
1 voto

Trackbacks

URL de Trackback para esta publicação

Comentários

antonio josé bianchi cerqueira
antonio josé bianchi cerqueira
nos diz a constituição federal, em seu artigo 7º:"são direitos dos trabalha
User não está online
antonio josé bianchi cerqueira Domingo, 05 Fevereiro 2012

os homens tb têm sua humanidade, se me perdoam o cacófato, só não fazem se ligar a um sistema cínico como o nosso em busca de pretensa e vã segurança como as damas, que já não sabem mais o que querem, não querem amar, na verdade é isso, preguiça de se relacionar, chamemos, é isto que tenho conferido. agarrando-se a este sistema comem na mão dele, pedindo perdão mais uma vez pela expressão grosseira, porque ouvir português claro as moçoilas não querem. querem vernizes, peles de cordeiro, talvez porque, com seus não-me-toques, considerem coisas como sinceridade e autoaceitação brutas - a negação do auto-conhecimento tá clara no texto.
como a mulher que crê em sistema sofre, perdendo a espontaneidade para corresponder a expectativas. muito cabeça tudo isso aí, mas saber-se o que não se quer, isso qualquer um faz. no mais, utopias.

Por favor, conecte-se primeiro para enviar comentários