Dando prosseguimento à série que retrata os perfis de grandes acadêmicos brasileiros, a FAP publica hoje um resumo biográfico do escritor e jornalista Carlos Castello Branco.
Veja, ainda, o texto O desejo de liberdade, que Castello Branco publicou em 1976.
Biografia
Sexto ocupante da cadeira 34, eleito em 4 de novembro de 1982 na sucessão de R. Magalhães Júnior e recebido em 25 de maio de 1983, pelo acadêmico José Sarney.
Carlos Castello Branco, jornalista, contista e romancista, nasceu em Teresina, PI, em 25 de junho de 1920, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 1º de junho de 1993.
Era filho do desembargador Christino Castello Branco e de Dulcilla Santana Branco. Formou-se em Direito pela Universidade de Minas Gerais, em 1943. Jornalista desde 1939, trabalhou na cadeia dos Diários Associados, passando por diversos cargos de chefia e fixando-se como repórter político, a partir de 1949, inicialmente no O Jornal, depois no Diário Carioca e na revista O Cruzeiro.
Vocação literária intermitente e absorvida pelo jornalismo, Castello Branco foi parte da "geração mineira de 1945", ao lado de Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, tendo publicado, em 1952, o livro Continhos brasileiros. Único contista piauiense citado por Herman Lima no seu livro Variações sobre o conto (MEC), a carreira puramente literária de Carlos Castello Branco interrompeu-se com o romance Arco de triunfo, publicado em 1959, para dar lugar a uma das mais fulgurantes carreiras do jornalismo brasileiro.
A atividade jornalística de Castello seria interrompida brevemente em 1961, quando assumiu o cargo de Secretário de Imprensa do presidente Jânio Quadros. A proximidade com Jânio Quadros possibilitou-lhe recolher dados e circunstâncias que ninguém mais seria capaz de alinhar com tanta percuciência e segurança, e que ele iria relatar no seu livro póstumo A renúncia de Jânio (1996). Ele próprio condicionou a publicação do depoimento a um prazo além de sua morte, porque não queria ninguém apontando-lhe reservas e omissões, ou até incapacidade em explicar a renúncia do presidente Jânio Quadros. Se houvesse por acaso alguma explicação objetiva, o notável jornalista que foi Castello Branco certamente decifraria as motivações desse ato.
Voltou ao jornalismo em 1962, como chefe da Sucursal do Jornal do Brasil em Brasília, cargo que exerceu até 1972, e como colunista político, que foi até o fim da vida, na sua Coluna do Castello. Reunindo suas colunas, publicou uma série de livros sobre "os fatos que precederam e sucederam o Movimento de março de 1964": os dois volumes de Introdução à Revolução de 1964 e os quatro volumes de Os militares no poder, que teriam seu seguimento, conforme disse o autor, "na medida da persistência do interesse público por um depoimento que, à margem da história, procura dar apenas uma visão parcial e contemporânea de situações complexas, repetitivas, monótonas, mas apaixonantes." A Coluna de Castello representou, por unânime consenso, a peça mais importante do jornalismo político brasileiro. Sua leitura, todos os dias, constituía uma obrigação fundamental de todas as pessoas com qualquer dose de interesse, direto ou indireto, na vida pública do país.
A história de Carlos Castello Branco confunde-se com a história da redemocratização brasileira. Desde a queda da ditadura Vargas, Castelinho como todos os jornalistas o chamavam passou a viver e a respirar com as instituições políticas. Pode-se dizer mesmo que passou a fazer parte delas: quando a liberdade floresce, Castello se torna uma das personalidades importantes da República; nas épocas de regressão, está sempre na primeira lista dos encarcerados. Não que ele fosse subversivo, perigoso. Ao contrário, era conservador e pacato. Mas seus escritos tinham a virtude de incomodar os poderosos que, a pretexto de salvar a pátria, escravizam seus concidadãos.
Além da aptidão jornalística de testemunhar, registrar e reter na memória, Castello era uma estrela de primeira grandeza na profissão de interpretar os fatos políticos.
Jornalista dos mais conhecidos e respeitados, foi eleito, em 1976, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal, cargo que exerceu até 1981. Em 24 de outubro de 1978, foi homenageado nos Estados Unidos com o prêmio Maria Moors Cabot, pela Universidade de Columbia, Nova York, destinado aos jornalistas notáveis das Américas. Recebeu também o Prêmio Mergenthaler, de liberdade de imprensa; o Prêmio Nereu Ramos de jornalismo, dado pela Universidade de Santa Catarina; e o Prêmio Almirante, na área de jornalismo.
Era membro da Academia Piauiense de Letras e do Pen Clube do Brasil.
COLUNA DO CASTELLO
O DESEJO DE LIBERDADE
BRASÍLIA Não há qualquer indício de que o Governo pretenda transformar o impulso de fraternidade e congraçamento, simbolizado na atitude permanente do grande morto deste agosto de 1976, em algo capaz de alterar a substância desse regime intolerante por índole sob o qual vivemos. Que o povo está do lado da conciliação e da paz e que reivindica o seu lugar ao sol ficou evidente na extraordinária concentração cívica, a qual, segundo a feliz expressão do Senador Paulo Brossard, devendo ser um lamento, se converteu em hino. As restrições, símbolo do regime, "parece que se condensavam no esquife de um perseguido e provocaram a explosão dos mais nobres sentimentos populares". O sentimento, todavia, não era de revolta, mas de pungente apelo à compreensão da grandeza da causa a que se dedicara sem ódio e sem ressentimento o fundador de Brasília. Havia na manifestação popular como que a transfusão da generosidade do proscrito e o apelo para que todos se irmanassem em torno da devolução da liberdade à Pátria. A uma amiga, com quem esteve em Brasília na véspera da sua última viagem, Juscelino Kubitschek, depois de lançar um olhar sobre a cidade, que sentia distanciar-se das suas origens, perguntou de repente: "Será que morrerei sem ver de novo a minha terra livre?"
O desejo da liberdade é a grande mensagem da manifestação de Brasília. Coincide ele, em essência, como o projeto político do Presidente Geisel, conduzido por entre as asperezas de um sistema ainda indomável no seu ímpeto reacionário. Os esforços do Presidente, que já nos devolveu parcelas importantes da liberdade de debate e de manifestação do pensamento, embora ainda a título precário, são testemunhados pela Nação mas operam por entre contradições, indicativas de que continua a viver o Governo entre pressões e contrapressões que o constrangem a uma pausada marcha, do que pretende didática, no caminho do que passou a chamar de aperfeiçoamento democrático, desde que ao sistema repugna ainda a palavra "democratização", mais ajustada a um regime de baixo grau de institucionalização e de menor grau de participação.
A longa demora para que o Governo se decidisse à homenagem elementar do luto oficial pela morte de um ex-Presidente da República revela que o General Ernesto Geisel se depara com dificuldades muito específicas para conjugar sua ação de Presidente com sua ação de chefe do processo revolucionário. É claro, como observou o Sr. Humberto Barreto, numa óbvia tradução do alívio presidencial pela decisão que pôde afinal ser tomada, que se tratava de uma decisão que merece elogios. Tanto mais elogiável quanto o tempo necessário a tomá-la revelou obstinação e decisão do Chefe do Governo na confrontação com os obstáculos que teve de examinar e estudar. Fato que por si só põe a nu a inviabilidade do congraçamento entre povo e Governo, propiciada pelos sentimentos que brotaram na Capital na última segunda-feira. Passado o espanto e vencida a cautela dos primeiros dias, voltaremos à radicalização, preconizada dentro do sistema como um duplo e dúbio dever de enfrentar a eleição e de confrontar os adversários do processo revolucionário.
No entanto, não se pode deixar de abrir lugar, nesta ordem de considerações, à ordem do dia do Ministro Sílvio Frota, que conclamou a juventude a repudiar "o preconceito, a intolerância, a violência, as ideologias fanatizadoras e as doutrinas anticristãs, para exaltar os valores da verdade, da justiça e da liberdade, para praticar, como nenhuma outra gente, a ampla e fraterna convivência humana, seguindo os ditames da consciência nacional". Magnífica e oportuna a inspiração do Ministro do Exército, como que a identificar, no episódio que precedeu de dois dias a comemoração do Dia do Soldado, aqueles ditames da consciência tão claramente demonstrados pelo povo no enterro de um dos seus heróis. Um herói pacífico, tolerante, fraterno, entre cujos erros jamais se contou, no Governo, o apelo à violência e, dentro ou fora do Governo, a demonstração da intolerância e do preconceito ou a adesão a qualquer ideologia fanatizadora.
Conjugam-se assim elementos positivos manifestação popular, definição política do Presidente e tomada de consciência do Chefe do Exército a confluírem para um objetivo, que no entanto ainda é uma meta longínqua no quadro das realidades nacionais. Ao General Geisel cumpre lembrar o exemplo de decisão e audácia do falecido Presidente Juscelino Kubitschek, que resolveu construir Brasília e a construiu em três anos, enfrentando ceticismo, oposição, quase revolta. Do trabalho à malícia, a tudo recorreu para vencer obstáculos e fazer o que lhe parecia ser obra exigida pela Nação e a ser cumprida por alguém que se dispusesse a agir na dimensão do estadista.
(Jornal do Brasil, 25 de agosto de 1976.)
Comentários de usuários