Ivan Alves Filho escreve sobre um episódio envolvendo a Bossa Nova e um famosos casal, no final dos anos 50...
Texto:
Rio de Janeiro, final dos anos 50. A cidade, então uma das mais lindas e criativas do mundo, conta com cerca de dois milhões de habitantes e está prestes a passar o bastão de capital do país para Brasília - a futurista Brasília de Juscelino Kubitschek, Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e, também, dos seus anônimos construtores, os operários candangos. As praias do Rio de Janeiro ainda estavam longe de ser poluídas e a segurança e a paz pareciam reinar em toda a parte. Quem viveu minimamente aquela época sabe que era assim. Acho que não idealizo muito.
A bem da verdade, o Brasil vivia então um de seus melhores momentos, os chamados anos dourados. Cinquenta anos em cinco, conforme se propagava à época. E nada de perseguições políticas, que Juscelino Kubitschek não era homem disso não. Para ele, a paz era uma forma de governo.
Essa situação favorável se refletia na cultura e até mesmo na prática esportiva, com o Brasil se sagrando campeão mundial de futebol e de basquete. Além disso, Éder Jofre, no boxe, e Maria Esther Bueno, no tênis, também começavam suas vitoriosas carreiras. E o cavaleiro Nelson Pessoa Filho superava mil obstáculos. O Brasil brilhava no cinema, na música e na literatura.
Rio de Janeiro, final dos anos 50, dizia no começo. Um rapaz jovem, de pele clara, acompanhado de sua belíssima esposa de cabelos castanhos, bate à porta de um apartamento defronte ao seu em um modesto prédio de Copacabana. E estabelece o seguinte diálogo com sua vizinha de corredor:
- Boa tarde. Tudo bem com a senhora, Dona Magdalena? Olha, Dona Magdalena, eu acabei de gravar um disco e não tenho como ouvi-lo. Não possuo vitrola em casa, no momento. Será que eu poderia escutá-lo em sua casa?
- Claro que sim! Vocês podem entrar, é claro! Não se preocupem com as crianças...
- A senhora não se importa mesmo?
- Imagina, entrem! Fiquem à vontade.
Minha mãe, que então costurava para fora, como se dizia, arrumou um pouco a pequena sala do apartamento e o casal ficou ali, escutando aquele disco 45 tours, lambendo a cria.
Estavam os dois emocionados e não era para menos. Um primeiro disco não é todo dia que acontece. O nome do disco era Bim Bom e o casal, bem, o casal era João e Astrud Gilberto!
Naquele momento, Dona Magdalena, minha mãe, Maria Luiza, minha irmã, e eu não podíamos sequer imaginar que estava surgindo o movimento musical da Bossa Nova, que depois conquistaria o mundo