Ivan Alves Filho escreve sobre um dos líderes da revolução argelina, o comunista Malek.
Texto:
“Eu sou saarauí”, dizia-me o amigo argelino Malek. Transcorria o ano de 1974, época áurea do conflito que opunha, de um lado, a Frente Polisario – representante dos povos nômades do antigo Saara espanhol – e a monarquia de Hassan II, o então ditador que reivindicava o território saarauí para os marroquinos. Malek queria expressar com seu gesto que era um homem do deserto e que o deserto, no fundo, não tinha pátria. Era saarauí, ponto final.
Malek era o que se poderia chamar de herói do povo argelino. Ainda estudante, membro do Partido Comunista do seu país, opôs-se à dominação colonial, pagando um preço altíssimo por isso. As torturas que sofreu por parte do exército francês deixaram seqüelas terríveis em seu corpo e na sua alma.
Meu amigo era um dos principais coordenadores da resistência argelina em Paris. Sua tarefa era combater o inimigo em seu próprio terreno, isto é, organizar o trabalho político entre os estudantes argelinos radicados na Metrópole mesmo. Certa vez eu o convidei para tomarmos “un petit pot” (uma pequena taça de vinho) em um café situado quase defronte à Sorbonne. Conversa vai, conversa vem, e Malek, com seu eterno sorriso nos lábios, me confidenciou: “os estudantes da resistência se reuniam nesse café. Certa vez eu fui salvo pelo gongo. Os tiras deram uma batida e eu pedi ao dono do bar para guardar um pacote que trazia comigo. Na verdade, eram panfletos do FLN e o pobre homem, que não sabia de nada, guardou tudo direitinho. Despistei os tiras e voltei algum tempo depois para recuperar o material. A sorte é que o dono já me conhecia, confiava em mim...”
Malek me contava que as batidas policiais também eram freqüentes nos trens que faziam as linhas dos subúrbios parisienses. Todo argelino era um suspeito em potencial, naturalmente. Malek, como era saarauí, de pele bem escura, se fazia quase sempre passar por antilhano, o que tranqüilizava os guardas, que não o incomodavam tanto. Segundo o meu amigo, muitos franceses foram solidários com a luta do povo argelino. Alguns chegaram a ser, inclusive, torturados junto com ele.
Após o triunfo da luta de libertação nacional, que custaria dezenas de milhares de vida ao povo argelino, Malek retornou à Argélia. Por pouco tempo: o golpe que derrubaria Ben Bella, um aliado dos comunistas, custaria caro a Malek, que seria novamente preso e barbaramente torturado. Seus esbirros chegaram a injetar líquidos venenosos em sua cabeça, tentando abalar suas faculdades mentais. Solto, com a saúde extremamente comprometida, retornou a Paris. Mas vivia e respirava o clima da Argélia, a pátria distante. Traçava planos e mais planos para a volta definitiva à sua terra. Para ele e os demais argelinos radicados na França. Economista brilhante, Malek sonhava em encontrar uma saída econômica que fizesse com que os argelinos pudessem retornar à sua terra. Acreditava na força do trabalho por conta própria, quase uma heresia para os comunistas àquela época. Volta e meia eu ia à sua casa com a Anne, minha mulher, militante do Partido Comunista Francês, e ali escutávamos as transmissões da Rádio Moscou para a América latina e a África.
Eu já me encontrava no Brasil, morando mais precisamente no interior do Estado do Rio de Janeiro, quando recebi a notícia da morte do meu querido amigo Malek, ocorrida no final dos anos 80, em sua terra natal. Poucos fatos na vida me entristeceram tanto. No finalzinho dos anos 90, estive com sua filha em Paris e senti uma grande emoção: ela se transformara em uma linda moça e dançava balé na França. Sua mãe, Grajna, nunca mais casara e se dedicara totalmente à filha.
Apesar de tudo, Malek realizara seu sonho de retornar à Argélia. Para mim, ele sempre fora um exemplo de militante político, desses que nunca abandonam suas esperanças e tampouco se vendem por cargos, sabendo que a palavra final é definida pela História. “Eu sou saarauí”, parece que o vejo ainda dizer, na sala do seu modesto apartamento parisiense, não sem uma certa ponta de ironia no olhar e na voz.