Prepara-se em boa hora a publicação da obra completa do Padre António Vieira. Saudando a iniciativa, recordamos a edição que tantos de nós lemos e consultámos: os três volumes de «Sermões», no âmbito das «Obras Escolhidas», na coleção «Clássicos Sá da Costa», com prefácios e notas de António Sérgio e Hernâni Cidade. A primeira edição destes tomos foi de 1954 e a última, ainda está disponível, foi lançada em 2008, no ano do centenário do nascimento do «Imperador da Língua». Podemos através desta edição contactar com o orador sagrado de exceção, lendo os seus sermões mais conhecidos e celebrizados, com notas pedagógicas, que permitem uma boa compreensão das circunstâncias e do contexto em que foram ditos.
ORADOR PORTENTOSO
O Padre António Vieira é das figuras mais apaixonantes da cultura portuguesa. Não é, por isso, possível compreendê-lo através de quaisquer simplificações. Há sempre no seu pensamento e na sua escrita um lado misterioso e insondável que ultrapassa todas as aparências. Orador portentoso soube sempre usar a palavra com subtileza e força, como um meio de persuasão e de sedução – como ninguém mais foi capaz na nossa língua. Pode dizer-se que estamos perante uma síntese fecunda do espírito barroco – ligação entre a clareza do verbo, a compreensão da diversidade do mundo e a curiosíssima articulação dos adornos, orientados para dar eficácia às ideias. E o seu carisma chega aos nossos dias. Ninguém fica indiferente às suas palavras, quatro séculos passados. Quantas mudanças, e no entanto persiste a atualidade da atitude, das palavras e da necessidade de mobilizar todos os seres humanos em torno do objetivo de tornar a vida e a sociedade mais justas. Como hoje se vê, conhecendo-se a «Clavis Prophetarum» (na tradução de Arnaldo Espírito Santo) há aí um pensamento de Vieira, que supera o excecional domínio do estilo, com uma reflexão teológica e política da maior profundidade, orientada para a criação de condições humanas de legitimidade e justiça – corolário do mistério da Encarnação de Jesus Cristo.
O debate em torno do «sebastianismo» é inesgotável, mas o certo é que Vieira não considerava a espera circunstancial de D. Sebastião como a questão fundamental. Mais do que o mito importava-lhe o exercício do desígnio de um povo. Como afirmou A. M. Machado Pires, em «D. Sebastião e o Encoberto»: a «essência do sebastianismo não estava na figura do rei (que lhe deu nome), mas nos anelos que há de realizar». O Encoberto não seria assim o monarca desaparecido nas areias de Alcácer Quibir, mas um rei com os atributos anunciados décadas atrás por Gonçalo Anes Bandarra, o sapateiro de Trancoso, capaz de libertar os povos das misérias, da tirania e do erro. D. João de Castro, em 1587, daria, aliás, conta dessa esperança no seu «Da quinta e última Monarquia futura com muitas outras cousas admiráveis dos nossos tempos». Durante o período da monarquia dual, as ideias sebastianistas expandiram-se compreensivelmente, e com maior intensidade nos anos finais (nos tempos de Olivares e do período decisivo da guerra dos 30 anos). Afinal, mais do que uma «Corte na Aldeia» era necessário um rei que consumasse a independência. Existia, assim, um desígnio político claro que tinha de ser compreendido na circunstância histórica, muito mais do que na busca de razões culturais ou até étnicas. O jesuíta deve, porém, ser visto e entendido no cruzamento de diversas influências e ações de fundo messiânico judaico, a começar no Livro de Daniel (2 – 31-35) e a continuar no profetismo de Santo Isidoro e de Frei Gil de Santarém, no ciclo bretão (de Merlim e do Rei Artur), na Idade do Espírito Santo do monge calabrês Joaquim de Flora e dos franciscanos espirituais, na influência de sefarditas e cristãos-novos e no Bandarra («Todos terão um amor / Gentios como pagãos / Os judeus serão cristãos / Sem jamais haver error»).
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