Texto do economista Antônio Fausto Nascimento.
Não deixa de ser significativo o prognóstico de que a economia brasileira poderá substituir e ultrapassar o Reino Unido como a sexta maior do mundo. Após meio século de crescimento ininterrupto (1930-1980), ingressamos numa etapa de turbulência, durante mais de uma década, marcada por crises recessivas, desemprego, insolvência externa e hiperinflação, levando ao retrocesso da sétima à 13a. posição, entre as maiores economias, seguido pela recuperação decorrente do Plano Real.
Com a possibilidade cogitada, ganha-se prestígio no cenário externo, mas a maioria da população continua pobre, a renda média por habitante é baixa, comparativamente a outros países, mesmo em crise. A situação da saúde pública é calamitosa, os níveis de educação, cultura e o desempenho de nossos estudantes em redação e ciências exatas, nas competições internacionais, ainda deixam muito a desejar.
Em que pese a melhoria dos indicadores sociais, nos últimos anos, o baixo patamar de onde partiram as políticas adotadas, impediu um cenário mais equilibrado de distribuição da renda e da propriedade. O Brasil continua campeão da desigualdade social, ocupando a 84a. posição no conjunto de 187 países avaliados. O expressivo aumento real do salário mínimo, nos últimos dez anos, ainda o situa em patamar comparável à primeira metade dos anos oitenta do século passado, o mesmo ocorrendo em relação à participação dos salários na renda nacional.
O analfabetismo ainda é da ordem de dez por cento, o dobro nas regiões Norte e Nordeste. A maioria dos trabalhadores tem baixa escolaridade e quase dois terços dos empregos, gerados pelo crescimento na última década, tiveram remuneração de até dois salários mínimos. Segundo dados preliminares do Censo do IBGE, recém-divulgado, a proporção de ocupados nessa faixa de renda passou de 49%, no ano 2000, para 63% em 2010. A economia gerou milhões de empregos em serviços de baixa qualificação, daí a redução da pobreza no período mencionado.
O número de pessoas vivendo em favelas quase dobrou. Mais de onze milhões de habitantes, 6% da população total, contra 3,9% no ano 2000. Cerca de 50% das moradias precárias, em 6.329 favelas, encontram-se na Região Sudeste, a mais desenvolvida do País, num período em que a economia nacional cresceu mais de 40%, significando que os ganhos econômicos não foram partilhados com o povo, em termos de saúde, educação, habitação, transporte e saneamento. Também confere um viés falacioso à retórica triunfalista oficial acerca da eficiência das políticas públicas.
A qualidade do crescimento e da política econômica em vigor póde ser contestada. Crescente desnacionalização e monopolização do sistema produtivo, incentivadas e financiadas pelo Estado, endividamento interno e passivo externo onerosos, carga fiscal elevada, juros extorsivos, cobrados dos trabalhadores, das médias e pequenas empresas, desindustrialização e pauta de exportações dominada por "commodities" minerais e agrícolas.
Inserção subordinada na divisão Internacional do trabalho e no processo de globalização fazem do Brasil um país cada vez mais dependente em termos financeiros, tecnológicos e de comércio exterior. A perspectiva de vir a ser sexta potência poderá não se manter por muito tempo, na medida da recuperação dos países ricos e dos efeitos da crise mundial.