Ivan Alves Filho: Um provérbio siberiano

O livro foi feito para guardar a palavra, nascida da oralidade. Esta a sua razão de ser, a sua força. E o homem é, de certa forma, aquilo que diz. Daí o livro ter atravessado os séculos, do papiro à era digital.

Minha experiência com os livros, seja como leitor, seja como autor, marcou – e marca – a minha vida, e isso desde os tempos de guri. Meu filho chama-se Pedro devido ao livro As aventuras de Pedrinho, de Monteiro Lobato. Se um dia eu desejasse morar dentro de um livro, esta seria minha primeira opção.

Li muito e continuo a ler muito. E consegui publicar alguns livros, também. E aprendi demais com cada um deles. Não foram poucas as alegrias e os encontros que eles me proporcionaram.

Eu me recordo que, quando lancei Memorial dos Palmares, em 1988, um geógrafo brasileiro que se encontrava em Angola mandou-me um recado dizendo que os soldados do MPLA que combatiam os fascistas financiados pela África do Sul, em tempos de apartheid, liam o meu livro nos cursos de formação política do Exército saído das lutas de libertação nacional na pátria de Agostinho Neto. Seus ancestrais haviam lutado contra a escravidão no Brasil e isto servia de exemplo de luta para eles. Nem é preciso dizer o quanto aquilo me comoveu.

Poucos anos depois, a Unesco me convocava, na figura de seu secretário-executivo, o diplomata senegalês Doudou Diènne, para integrar o projeto A Rota do Escravo. Segundo o próprio Doudou me revelaria, Memorial dos Palmares fora fundamental para essa decisão da Unesco. Preparei então um projeto sobre o impacto do tráfico negreiro na marcha da História moderna.

Eu me lembro ainda que, por volta de 2010, Francisco Inácio de Almeida e eu dávamos uma palestra de formação política em Manaus e um companheiro se aproximou de mim para dizer que havia remado mais de duas horas pelos igarapés amazônicos para se encontrar conosco. Ele tomara conhecimento de um livro meu sobre o saudoso Giocondo Dias e queria me conhecer. Haja coração.

Os exemplos se multiplicam. Mas, há pouquíssimo tempo, eu vivi um novo e decisivo momento: ao ofertar outro livro meu, A saída pela Democracia, a uma jovem estudante em Tiradentes, cidade-símbolo da nossa Independência, vi que ela não pôde se conter e começou a chorar. Ela nunca tinha ganhado um livro autografado antes. Isso se deu durante a FLITI, I Feira Literária de Tiradentes, à qual compareci para apresentar a referida obra, editada pela Aquarius. Há poucas semanas, a Fundação Astrojildo Pereira e a Aquarius decidiram fazer uma coedição da obra, para minha alegria.

Um velho provérbio siberiano dizia que "a palavra pode matar um homem".

De emoção, certamente.

*Historiador, autor de mais de uma dezena de obras, dos quais o último é A saída pela Democracia


Livro ‘Almeida, um combatente da democracia’ mostra legado de dirigente do Cidadania

Obra reúne coletânea de 32 textos com relatos exclusivos sobre importância de líder para democracia brasileira

Cleomar Almeida, assessor de comunicação da FAP

Cearense, jornalista, revolucionário e referência na luta pela democracia brasileira, Francisco Inácio de Almeida, de 81 anos, superou prisões, clandestinidades e exílios sem desanimar. Com sabedoria histórica, ele é um dos principais articuladores do Cidadania, que garantiu nova identidade ao PPS (Partido Popular Socialista), do qual foi secretário-geral e que evoluiu a partir do PCB (Partido Comunista Brasileiro), fundado em 1922.

“Almeida enfrentou prisões, clandestinidades e exílios sem nunca esmorecer no combate pelo Estado Democrático de Direito. Tem a Democracia como fundamento da sua práxis ou ação política. Este o seu maior legado. Ou seja, a tolerância, a solidariedade e a dedicação a uma luta”, escrevem os organizadores do livro Almeida, um combatente da democracia (Abaré Editorial, 140 páginas), Ivan Alves Filho e George Gurgel de Oliveira.

Ivan Alves Filho e George Gurgel de Oliveira (D) são os organizadores do livro Almeida, um combatente da democracia (Abaré Editorial, 140 páginas)

Lançado no dia 14 de novembro em evento online, o livro será colocado à venda e, em breve, terá sua versão disponível em e-book, de acordo com a editora Tereza Vitale.  Homenagem e registro da importância de Almeida para as forças democráticas brasileiras, a obra tem prefácio de Luiz Werneck Vianna e reúne 32 textos de diferentes autores que registram experiências do revolucionário, “articulador de pessoas e coisas na luta comum”, como o livro o descreve.

Almeida é o retrato vivo da história de luta pela redemocratização do país, pela qual atuou, conjuntamente, com outros grandes nomes do PCB. Em Moscou, trabalhou com Luiz Carlos Prestes. No Brasil, com a volta dos comunistas ao país garantida pela Anistia, em 1979, integrou a direção máxima do partido, ao lado de Giocondo Dias, Dinarco Reis, Salomão Malina, Hércules Corrêa, Geraldo Rodrigues dos Santos, Paulo Elisiário Nunes, Sérgio Augusto de Moraes e do hoje presidente do Cidadania, Roberto Freire.

Roberto Freire: “Pra este antigo comunista, hoje cidadão do meu tempo, Chico". Foto: Cristiano Mariz/VEJA

Filho de uma família de pequenos produtores rurais e que trabalhou desde menino em uma padaria, o dirigente carrega, em si mesmo, as várias formas pelas quais é chamado e a característica de integridade, como ressalta Freire. “Pra este antigo comunista, hoje cidadão do meu tempo, Chico. Pros (sic) cearenses, Inácio. Para o resto do Brasil, Almeida”, afirma o presidente do Cidadania.

“É um homem de luzes, sempre olha pra frente. Sua mesa de trabalho, uma bagunça organizada onde sabe encontrar cada um dos papéis que procura, é um sinal de sua criatividade. E pessoas criativas não param no tempo. Difícil ver Chico perder a calma. Mantém a tranquilidade mesmo nos debates mais acirrados. Debate ideias”, afirma Freire, em seu texto.

Caetano: "Percorreu o trajeto habitual de simpatizante para militante e de militante para dirigente partidário". Foto: FAP

O cientista político e diretor-geral da FAP (Fundação Astrojildo Pereira), Caetano Araújo, lembra que Almeida aproximou-se do partido ao final dos anos 1950, perto dos seus 20 anos, quando estudava jornalismo e trabalhava em jornais de Fortaleza. “Em uma década decisiva na história nacional, que começou com o fortalecimento das lutas populares, passou pelo golpe de 1964 e culminou na radicalização da ditadura no rumo do fascismo, após o AI-5, percorreu o trajeto habitual de simpatizante para militante e de militante para dirigente partidário”, diz Araújo.

Para o dirigente do Partido Democrático, da Itália, o sindicalista Andrea Lanzi, Almeida é “democrata exemplar” e suas principais características são “humildade, cordialidade e respeito”. “Mesmo sendo ele um militante apaixonado pelas próprias ideias, sempre mantivemos um profundo respeito um pelo outro. Apesar do meu apoio ao Partido dos Trabalhadores, como responsável político do PD no Brasil, que ele considera uma posição equivocada, o companheiro Almeida sempre soube entender os meus posicionamentos”, conta ele, no livro.

Dura realidade nordestina criou em Almeida o inconformismo em aceitar as injustiças que, no Brasil, começam no Nordeste, avalia Aspásia Camargo. Foto: Divulgação

A dura realidade nordestina criou em Almeida o inconformismo em aceitar as injustiças que, no Brasil, começam no Nordeste, o principal responsável pelas escandalosas desigualdades econômicas e sociais do país, na avaliação da escritora Aspásia Camargo, ex-presidente do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas).

“Este inconformismo certamente o levou a abraçar as causas do nosso Partidão, a procurar em Cuba um caminho para a América Latina e a encontrar em Prestes sua fonte de dedicação, ele que foi o único verdadeiro herói que tivemos, o herói da Coluna Prestes que varou 27.000 km invencível, denunciando as oligarquias. E sendo, afinal, a fonte inspiradora de Mao Tsé Tung em sua Longa Marcha que conquistou a China e surpreendeu o mundo”, afirma Aspácia.

Além das questões políticas e da intensa e incansável defesa de Almeida pela democracia, o livro também aborda aspectos familiares, mostrando a versão do “Pai Almeidinha”, conforme escreve o filho e jornalista Thiago Vitale Jayme. De um homem que inspira inúmeras pessoas, o exemplo é a melhor forma de ensinamento. “Você é um pai que ensina por meio do exemplo. A sua dignidade diante da vida é uma aula diária. A sua empatia (você liga para todos os grandes amigos rotineiramente, só para saber se estão bem) é outro gesto que me ensina sempre”, conta Jayme.

A socióloga Abigail Páschoa, ativista das causas negras, avalia que “Almeidinha”, como ela também o chama, simboliza a organização, o funcionamento produtivo e orgânico do partido antigo PPS e do atual Cidadania. “Espero que o companheiro continue cumprindo seu papel de direção não autoritária no Cidadania, fortalecendo seu papel de liderança orgânica e firme”, ressalta, para continuar: “Que esta justa homenagem que ora fazemos ao companheiro sirva também de estimulo para que os novos militantes pautem suas atuações pelos princípios democráticos, buscando sempre os projetos coletivos, acima dos delírios dos projetos de poder individual, na trajetória política do Cidadania”.

A seguir, confira a relação de conteúdo do livro:
Almeida, um combatente da democracia

Como um Prefácio — A propósito do amigo Almeida (Luiz Werneck Vianna)

Apresentação

Seus muitos combatentes

  1. Almeidinha (Abigail Páschoa)
  2. Um democrata exemplar (Andrea Lanzi)
  3. Do valor da coerência (Anivaldo Miranda)
  4. Almeida, o Francisco e o Inácio (Arlindo Fernandes de Oliveira)
  5. Almeidinha, o animador político das ideias (Aspásia Camargo)
  6. Um militante singular (Caetano Araujo)
  7. Almeida, um combatente da democracia (Cândido Feitosa Francisco)
  8. Almeida: 80 anos de luta libertária (Carlos Siqueira)
  9. Abertura ao novo (Cláudio de Oliveira)
  10. Para além as palavras, dos conceitos e da fraternidade (Cleia Schiavo Weyrauch)
  11. Almeida é nós (Cristovam Buarque)
  12. O comunista que nasceu para ser santo (David Emerich)
  13. Almeida, o veludo vermelho (Eduardo Rocha)
  14. Almeida, um democrata exemplar (Fausto Matto Grosso Camarada)
  15. Almeida, de Baturité para o mundo (George Gurgel de Oliveira)
  16. Em sua revolução está o afeto (Gylmar Chaves)
  17. A propósito de um filme (Ivan Alves Filho)
  18. Almeida, um cearense amazônida (José Maria Monteiro e Guiomar Monteiro)
  19. Almeida é seu codinome (Luís Mir)
  20. O nosso piemontês (Luis Sergio Santos)
  21. Sobre santos e heróis (Luiz Sérgio Henriques)
  22. Camarada Jorge (Maria Prestes)
  23. Você sabe quem é o Almeida? (Martin Cezar Feijó)
  24. Almeida aniversariante (Moacir Longo)
  25. Inácio de Almeida: existência e práxis em prol do socialismo democrático (Oscar d´Alva Filho)
  26. Camarada Almeida: reminiscências sobre um velho companheiro de lutas (Paulo César Nascimento)
  27. Codinome: Chico (Roberto Freire)
  28. Samba em Moscou (Sergio Augusto de Moraes)
  29. Pai Almeidinha (Thiago Vitale Jayme)
  30. Esperas e sofrências (Ulrich Hoffman)
  31. As armas do afeto (Vladimir Carvalho)
  32. Figura ímpar (Wellington Mangueira)

Sobre o livro:
Formato: 14cm x 21cm
Tipologia: Helvética LT Std
Papel de Miolo: Pólen soft 80g
Papel de Capa: Cartão Supremo
Número de Páginas: 140
Tiragem: 300 exemplares
Gráfica: Psi7


Ivan Alves Filho: O populismo, ontem e hoje

Trata-se de um equívoco acreditar que o fascismo seja um fenômeno de economias pouco desenvolvidas. Os fatos não mentem: tanto a Itália de Mussolini quanto a Alemanha de Hitler se alinhavam entre as nações mais industrializadas da Europa, nas décadas de 20 e 30, do século XX. O fascismo pode ser expressão do atraso, mas do atraso político.
O mesmo podemos dizer em relação ao populismo brasileiro. Seu berço maior é São Paulo, a chamada locomotiva do Brasil. Dali partiram Ademar de Barros, Jânio Quadros, Paulo Maluf e Lula da Silva.

Ademar foi interventor federal sob o regime estadonovista (1938-1941), duas vezes governador de São Paulo (1947-1951 e 1963-1966) e duas vezes candidato à presidência da República, ficando na terceira colocação em ambas as disputas (1955 e 1960). Deu origem ao ademarismo.

Jânio Quadros foi vereador por São Paulo (1948-1950, quando assumiu o mandato após a cassação dos vereadores do Partido Comunista - PCB). Em seguida, foi eleito deputado estadual (1951-1953), prefeito de São Paulo (1953-1955), governador (1955-1959) e, finalmente, Presidente da República (eleito em 1960). Uma carreira meteórica, portanto. Deu origem ao janismo.

Paulo Maluf foi outro populista de São Paulo. Teve uma carreira parecida com aquela dos demais: prefeito de São Paulo (1969-1971 - voltando ainda ao posto nos anos 90), governador (1979-1982) e candidato à Presidência da República, perdendo para Tancredo Neves, a 15 de janeiro de 1985, no Colégio Eleitoral. Deu origem ao malufismo.

Luiz Inácio Lula da Silva, sindicalista, disputou o governo de São Paulo em 1982, perdendo as eleições. Posteriormente, disputaria as presidenciais nada mais nada menos do que quatro vezes, vencendo o último pleito, em 2002, exatamente 20 anos depois de disputar o governo paulista. Deu origem ao lulismo.

Todas essas candidaturas têm em comum a demagogia, o despreparo administrativo, o aventureirismo, o conluio com o grande capital, o autoritarismo, apoiando-se sobre a figura de um líder carismático, que tenta passar por cima das instituições, desprezando-as e buscando o diálogo direto com as massas populares. Todas se revelaram uma farsa política.

É possível que já esteja em gestação - não para agora; nunca é… - uma nova candidatura populista, partindo de São Paulo.

Daí a importância da união do Campo Democrático na principal unidade da Federação, rechaçando o populismo - muitas vezes um fascismo que não ousa dizer o nome - do nosso horizonte. E essa união pode ser realizada em torno de Bruno Covas.

É possível. Também.

*Ivan Alves Filho, historiador, autor de mais de uma dezena de obras, das quais a última é A saída pela democracia (2020)


Ivan Alves Filho: Relembrando os 130 anos de Astrojildo Pereira

O que mais impressiona na trajetória de Astrojildo Pereira, a meu juízo, é a união que ele soube cimentar entre o homem de pensamento e o homem de ação. Uma combinação rara. Talvez por isso, o escritor e homem público Afonso Arinos de Mello Franco tenha se referido a ele como “a maior aventura intelectual” do Brasil, em seu tempo.

Vamos tentar entender melhor o motivo disso. Nascido em 1890, em Rio dos Índios, localidade de Rio Bonito, na velha província fluminense, Astrojildo vivenciou, em 1908, um episódio que o marcaria para o resto da vida. Foi assim. Ao ler nos jornais que o romancista Machado de Assis agonizava, ele pegou, imediatamente, uma barca em Niterói, atravessou a Baía de Guanabara e desceu na Praça Quinze, no centro do Rio de Janeiro. Lá chegando, se enfiou em um bonde e foi bater com os costados, no Cosme Velho, aprazível bairro onde vivia o autor de Memórias póstumas de Brás Cubas.

Profundo admirador da obra machadiana, o rapaz, de apenas 17 anos, queria se despedir do velho mestre. Expôs sua intenção às pessoas que se encontravam na casa e foi autorizado a entrar, no quarto do escritor. Ajoelhou-se, beijou-lhe então as mãos e logo depois se retirou. Na belíssima crônica “A última visita”, Euclides da Cunha, que presenciara a cena, escreveu: “Naquele momento, o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis, aquele menino foi o maior homem de sua terra”.

Dois anos após esse acontecimento, civilista convicto e já começando a se impregnar de ideias anarquistas, Astrojildo Pereira desembarcou no cais da Praça Mauá, no Rio, e foi conhecer algumas das principais capitais europeias. Perambulou seis meses pelo Velho Continente e retornou ao Brasil. No ano de 1911, ele já colaborava com o órgão anarquista Guerra Social, trabalhava como gráfico e linotipista e militava no movimento anarquista. Em 1913, integrou, com um grupo de aguerridos companheiros, a primeira central operária brasileira, a COB, da qual se tornaria o secretário geral. Em 1917 e 1918, liderou uma série de greves operárias que abalaram o Rio de Janeiro. Foi preso e barbaramente espancado pela Polícia, no final de 1917, e novamente preso, no ano seguinte. Não esmoreceu. Em 1922, sob inspiração direta da revolução bolchevique na Rússia, fez a opção definitiva pelo marxismo e ajudou a formar o Partido Comunista no Brasil. Em 1924, viajou para Moscou, já investido na condição de secretário geral do PCB. Nesse mesmo ano, assistiu, na Praça Vermelha, aos funerais de Vladimir I. Lênin – o arquiteto da revolução bolchevique e também do Estado soviético. Ainda em Moscou, por essa época, dividiu alojamento com um líder comunista que seria considerado um dos grandes estadistas do século XX: Ho Chi Minh.

De volta ao Brasil, viveu como um revolucionário profissional. Com efeito, ele não parava. Dedicou-se a organizar o PCB clandestino e se internou, em seguida, na Bolívia, em 1927. Sua missão? Contactar Luiz Carlos Prestes, o chefe da Coluna Invicta, em nome do Partido. Entregou a Prestes uma mala com livros marxistas e tentou convencê-lo da necessidade de revolucionar as estruturas da sociedade – e não apenas derrubar este ou aquele governo. Conseguiu atrair Prestes para as fileiras do PCB.

Uma vez acertado o ingresso do Partido na Internacional Comunista, Astrojildo Pereira passou a compor sua Comissão Executiva, a instância máxima da organização, em 1929, quando parte novamente para a capital soviética. Com menos de 40 anos de idade, ele já se apresentava como uma das grandes lideranças da revolução mundial.

Mas não tardaria muito e ele passou a ter sérias divergências políticas com o Partido no Brasil. Assim, foi afastado da organização, em 1932, sob a acusação de tentar barrar a linha dita de “proletarização” de sua política e de simpatizar, ainda, com as ideias de Nikolai Bukharin, opositor de Josef Stalin na direção do Partido Comunista da União Soviética.

Reintegrado ao PCB, no bojo da redemocratização do país, em 1945, Astrojildo colaborou, nesse meio tempo, com o jornal carioca Diário de Notícias e escreveu ensaios primorosos sobre Machado de Assis. Sua reputação como crítico se consolidou. Tampouco abandonou a reflexão política, debruçando-se sobre a análise do fascismo e sua influência no Brasil. Mais: foi o primeiro a apontar para a grandeza épica dos Quilombos dos Palmares, chamando Zumbi de “o nosso Spartacus negro”. Começou a publicar, então, seus vários livros de ensaios. E ainda se dedicou, de corpo e alma, à organização do I Congresso Brasileiro de Escritores, realizado em 1945. O Congresso lançaria, praticamente, a pá de cal sobre o Estado Novo de Vargas. Dele participaram Jorge Amado, Caio Prado Júnior, Graciliano Ramos, Aníbal Machado e outros nomes de primeiríssima linha da literatura, da historiografia e da ensaística brasileira.

Durante o Estado Novo, Astrojildo Pereira sobreviveu vendendo frutas em um depósito em Niterói, o que motivou Manoel Bandeira a escrever um poema sobre ele:

Bananeiras – Astrojildo esbofa-se

Plantai-a às centenas, às mil

Musa paradisíaca

Que dá dinheiro neste Brasil.

E de 1945 até o dia do Golpe de 1964, realizou pesquisas sobre a obra de Machado de Assis e a trajetória do PCB. Ao lado de sua companheira Inez, estas são as grandes paixões de sua vida, desde a juventude. Daí ter escrito, certa vez, que seu ideal de vida abarcava “um doce amor de mulher em meio a uma bravia luta política”. Seja como for, Astrojildo editou, nessas duas décadas, publicações da importância de Literatura e Estudos Sociais. Trabalhou na célebre Editorial Vitória, do PCB, e passou a ditar, na prática, a política cultural do Partido. Intelectual refinado, ele contribuiu para revelar alguns valores que brilhariam na cultura e na política, como Armênio Guedes e Leandro Konder. Por essa época, já estava publicando Machado de Assis, novelista do Segundo reinado (1942), Interpretações (1944) e Machado de Assis (1949). Formação do PCB sairia em 1962.

Astrojildo conviveu com figuras altamente representativas da cultura brasileira, como Oscar Niemeyer, Di Cavalcanti, Monteiro Lobato, Alberto Passos Guimarães e Nelson Werneck Sodré – pelo lado comunista – e Otto Maria Carpeaux e Hélio Silva, intelectuais católicos. Hélio Silva, inclusive, era um querido companheiro desde os tempos do anarquismo. Mais de uma vez, eu o ouvi – fascinado – discorrendo sobre isso, em meados da década de 80, quando tive oportunidade de trabalhar com ele, no Rio de Janeiro. O saudoso historiador narrava as andanças que Astrojildo e ele promoviam pelas ruas do Rio de Janeiro, o que não excluía uma certa boemia.

A explicação para esse trânsito junto a personalidades dos mais diferentes horizontes políticos e filosóficos reside no fato de que Astrojildo Pereira defendia seus pontos de vista sem qualquer traço de sectarismo. É bem verdade que, nos momentos mais duros dos embates ideológicos travados pelo PCB, o velho revolucionário se alinhou, daqui e dali, com posições que, a rigor, contrariavam sua própria visão de mundo. É que, por formação, jamais iria contra uma diretriz do Partido. Mesmo assim, era, basicamente, um homem avançado em relação à sua época. Escrevendo de Moscou, em 1925, por exemplo, reconheceu que “a Democracia, ainda que burguesa, é vista como um bem pelas massas”.

Era, de fato, um homem raro, desses que aparecem a cada meio século. Sua primeira prisão política, que eu saiba, se deu em 1917; a última, em 1964. Em 1965, devido aos rigores da prisão, onde sofreu um infarto e teve tuberculose nos dois pulmões, morreu Astrojildo Pereira.

Foi perseguido durante a vida inteira, mas nunca perseguiu ninguém. Lutou todos os combates possíveis pela liberdade. Afonso Arinos tinha razão: Astrojildo Pereira levou uma existência que honra a inteligência brasileira. Sua vida é um desafio permanente lançado à imaginação dos melhores romancistas.

Eu o conheci em nossa casa, no Rio de Janeiro, quando estava fazendo 13 anos. Foi logo após sua saída da prisão. Meu pai tinha por ele um grande respeito. Guardo até hoje, na memória, sua semelhança física com meu avô paterno. Em ambos, eu percebia a mesma candura nos gestos, a mesma doçura no olhar, a mesma calma ao lidar com as pessoas. Como Astrojildo, vovô era um admirador do camarada Prestes, o Cavaleiro da Esperança. Como ele, vovô nascera na velha província. Ao conhecer Astrojildo Pereira, foi como se eu passasse a ter mais um avô só para mim.

A bem da verdade histórica, é preciso dizer que o ex-governador da antiga Guanabara, Carlos Lacerda, apesar de ser um dos principais protagonistas do movimento político-militar de 1964, intercedeu junto às autoridades militares para que ele fosse solto. Meu pai nunca me disse, mas, pela ligação pessoal dele com Carlos Lacerda – trabalharam juntos, inclusive, em jornais – eu fiquei com a impressão de que ele pediu ao então governador da Guanabara para que interviesse para soltar Astrojildo. Aliás, em depoimento que me concedeu para o filme que fiz sobre o velho fundador do PCB, “A casa de Astrojildo”, Norma Dias, sua sobrinha, garantiu que o próprio tio lhe confidenciou, na prisão, que só não foi assassinado por interferência de Lacerda. A história bateu.

Pouco depois, soube de sua morte. Seu enterro foi uma corajosa manifestação pública de repúdio à ditadura militar então instalada no Brasil. Inez Dias, desafiando os esbirros do regime, gritou, à beira do seu túmulo: Viva Astrojildo Pereira! Da mesma forma que Gregório Bezerra, Astrojildo era de ferro e flor. Naturalmente, fiquei abalado com tudo o que estava acontecendo. No país do final da minha infância, prendiam e maltratavam homens com mais de 70 anos de idade. Seu pecado? Ter permanecido fiel às suas ideias de juventude. Era mesmo assustador.

O velho Astrojildo Pereira foi o primeiro herói da minha vida.

*Ivan Alves Filho, historiador, autor de mais de uma dezena de excepcionais livros, dos quais o último é “A saída pela democracia (2020)”


Ivan Alves Filho: Breve comentário sobre o quadro político

A sagacidade de Jair Bolsonaro nem sempre é reconhecida pela oposição. Um equívoco grave, a meu juízo. O homem é um animal político, ainda que truculento.

Pois o Capitão sabe se reinventar, a partir de uma leitura aguçada da conjuntura. A notícia dada pelo site O Antagonista de que ele estaria trabalhando com a possibilidade de a atual Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, compor uma chapa com ele em 2022 é mais um elemento que comprova isso.

Mulher, representante do agronegócio - o setor hoje mais dinâmico da economia brasileira -, originária do Mato Grosso do Sul e filiada ao DEM. As credenciais se encaixam como uma luva nos projetos do Capitão: Tereza Cristina vai disputar no terreno de Luiz Henrique Mandetta, ele próprio membro do DEM e ex-deputado federal com votação em Campo Grande.

De outra parte, há um evidente movimento de bastidores que pode desembocar na absolvição de Lula. O alvo aqui seria duplo: atingiria Sergio Moro e, de quebra, recolocaria Lula da Silva como adversário de Bolsonaro dentro de dois anos. Ou seja, escolheria seu oponente.

Jogada extremamente sagaz, sem dúvida. Como se contrapor a tudo isso? A única saída que antevejo seria unir o Campo Democrático, equidistante tanto do populismo de direita quanto do populismo dito de esquerda. Um primeiro passo poderia ser uma união semelhante àquela que se verificou em torno de Eduardo Campos, em 2014. Mesmo assim, será preciso avançar um pouco mais e negociar - desde o primeiro turno, de preferência - com os setores mais conservadores do Campo Democrático. Entre os partidos progressistas, teríamos o PSB, o Cidadania 23, a Rede, o PV. Eu não descartaria partes do PDT, do PSDB e do PCdoB tampouco. Personalidades? Vamos lá: Flávio Dino, Luciano Huck, Denise Frossard, Joaquim Barbosa, Marina Silva. Pelo lado mais conservador do Campo Democrático, teríamos figuras como Rodrigo Maia e Luiz Henrique Mandetta. Novos nomes seriam sempre bem-vindos.

A ideia é montar uma Frente Ampla que não se limite a atuar quando o fascismo ronda.

Uma Frente Ampla para governar de fato, com um programa econômico e social que possa abrigar as mais diferentes sensibilidades políticas do Campo Democrático, dos conservadores aos progressistas. Hoje o embate se dá entre a Civilização e a Barbárie. Quem encarnou isso em um passado recente entre nós foi o Presidente Itamar Franco.

*Ivan Alves Filho, historiador, autor de mais de uma dezena de obras, das quais a última é A saída pela Democracia


Ivan Alves Filho: A contribuição do PCB à vida brasileira

O ano de 1922 foi central para o entendimento do Brasil. Nele tivemos a Semana de Arte Moderna, o surgimento das reivindicações feministas, a formação do Centro Dom Vital, o início do que se convencionaria denominar por Tenentismo e, ainda, a criação da Seção Brasileira da Internacional Comunista. Um ano de cortar o fôlego. Provavelmente, o centenário da Independência obrigou o país a se repensar.

O Partido Comunista surgia como uma agremiação ao mesmo tempo nacional, isto é, buscando o enraizamento no país, e internacional, na esteira dos acontecimentos que sacudiam a Rússia em 1917.

Foi o único partido comunista no mundo saído diretamente do movimento anarquista.

O enraizamento interno tinha que ver com sua condição de partido da classe trabalhadora. Mas, rapidamente, já no final dos anos 20, o Partido percebia que não poderia praticar uma política de classe contra classe. O Brasil se diversificava, apresentando uma conformação social mais sofisticada e complexa. Ao lado da classe operária e do campesinato despontava uma nova camada, composta pelos setores médios. Eis o que abria a via para o diálogo com intelectuais e militares, por exemplo. Astrojildo Pereira foi o grande artífice dessa primeira grande mudança.

Outras viriam tão profundas quanto essa. Após atravessar a repressão do Estado Novo de Vargas e as vicissitudes da chamada Guerra Fria, os comunistas do PCB mudam novamente, acrescentando a seu ideário a questão democrática. Isso se deu com a Declaração de Março de 1958. Não por acaso, seu principal redator seria Armênio Guedes, o dirigente mais próximo de Astrojildo e de Giocondo Dias. Foi com esse espírito que o PCB evitou o esfacelamento por ocasião da ditadura militar. Apostando na aliança com os liberais e na luta de massas, o Partido apontou o caminho, jogando suas fichas na derrota e não na derrubada do regime. A História daria razão ao PCB.

Surgido no bojo das batalhas travadas pela Rússia Soviética, o PCB passaria por nova transformação após o esgotamento do chamado socialismo real, em 1991. Sabendo tirar as lições do fim da União Soviética e do processo iniciado em 1917, os comunistas brasileiros mudam o nome do partido e abandonam seu símbolo, a foice e o martelo. Mudaram o partido e não de Partido. Nascia o PPS em 1992. Ou seja, souberam preservar suas partes vivas, a saber a ética, a democracia e a noção de justiça social. Essa a maior herança do comunismo brasileiro. Mais do que qualquer outro partido, o PCB organizou o mundo do trabalho contra o grande capital, lutou pela cultura nacional e integrou o bom combate pela democracia. Este o seu grande legado.

Hoje, mais uma mudança. Surge, em cena, o Cidadania23. Se antes era soviets mais eletrificação, atualmente é Democracia mais automação. Em tempos de profundas alterações no aparato produtivo e no modo de vida das pessoas, o PPS estabeleceria vínculos com os movimentos surgidos nas ruas, em 2013, e nas redes sociais ativadas em computadores e celulares. Muitos eram de corte liberal. O Partido entendeu que o liberalismo político era uma conquista do processo civilizatório, afirmando o papel do indivíduo perante o Estado, o que não entrava em contradição com os direitos sociais que os comunistas sempre defenderam.

Terminei, recentemente, um novo livro: A saída pela Democracia. Em um dos seus últimos parágrafos, escrevo o que se segue: “Penso que um denominador comum possível seja a cidadania. Seu vínculo com o mundo do trabalho pode ser feito por intermédio da Constituição. Sua ligação com cada um de nós, individualmente falando, pode ser realizada por meio das lutas identitárias, incluindo aí a cultura como pertencimento. Seu elo com as liberdades pode se dar pela defesa dos direitos de ir e vir das pessoas. A cidadania pode ser o grande fator estruturante da participação popular pelas mudanças. Ela perpassa o sistema de classes; como conquista do processo civilizatório não é monopólio de classe alguma. É um patrimônio de todos”.

Sobre a singularidade do PCB na vida brasileira, desejo tecer ainda algumas considerações. Vamos lá.

Primeiramente, uma constatação: o PCB nunca esteve no poder central. Mas encarnou, como nenhum outro agrupamento político, a meu juízo, os interesses do povo brasileiro. Abaixo, alinho alguns pontos da atuação pecebista que marcaram a vida nacional:

1- O Partido contribuiu para a formação daquela que talvez tenha sido a primeira agremiação política de massas do país, a Aliança Nacional Libertadora, nos anos 30.

2- Empenhou-se, e isso desde os anos 20, no combate pela Reforma Agrária. Expressão disso são as lutas de autodefesa camponesa em Porecatu, no norte do Paraná, no final dos anos 40, e em Formoso e Trombas, em Goiás, no início dos anos 50. Destacaram-se aí as figuras de Agliberto Vieira de Azevedo, Gregório Bezerra, Hilário Pinha e João Saldanha, no caso de Porecatu, e Antônio Ribeiro Granja, Geraldo Tibúrcio e José Porfírio, no tocante às lutas em território goiano. Em fins de 1963, os comunistas foram responsáveis pela criação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) para representar os trabalhadores rurais, através das federações estaduais que, por sua vez, reúnem os sindicatos dos trabalhadores rurais de cada município. Seu primeiro presidente foi o comunista Lindolfo Silva. Esta importante entidade ainda existe até hoje.

3- O PCB deu apoio decisivo à memorável campanha do Petróleo é Nosso, um dos maiores e mais consequentes movimentos de massa do país. Aqui, temos de destacar a presença dos militares nacionalistas.

4- Atuou em defesa das terras indígenas, notadamente na criação do Parque Nacional do Xingu. Nesse sentido, foi fundamental a movimentação dos núcleos partidários ligados à problemática dos índios.

5- A Conferência Nacional do PCB publicou, no ano de 1934, um documento em defesa da questão negra e dos índios. A partir sobretudo desse momento, o Partido - que já havia lançado um operário negro, Minervino de Oliveira, como candidato à presidência da República, em 1930 - foi se sensibilizando cada vez mais com a questão negra. Nos anos 70, comunistas brasileiros atuaram na edificação dos novos Estados que se formavam na África de expressão portuguesa. O economista Gilson Leão trabalhou na Guiné Bissau e em Moçambique, e também neste contribuíram a geógrafa Arabela Pereira e o historiador Kunio Suzuki, assim como os aeronautas Mauricio Seidl e Íon Sá Weber. Kunio foi instrutor político da FRELIMO, antes mesmo da chegada desse partido ao poder, atuando nas zonas liberadas. O diretor de fotografia Antônio Luiz Mendes Soares ministrou cursos de cinema em Moçambique. O médico Davi Lerer militou profissional e politicamente em Angola. Na África subsaariana, mais precisamente na Argélia, nos primórdios da sua Independência, trabalharam, na área da educação e da construção de universidades, os comunistas e arquitetos Oscar Niemeyer, Edgar Graeff, Marcos Jaimovich e Oswaldo Cintra de Carvalho (Birunga), o médico e biólogo Luiz Hildebrando Pereira da Silva, o educador Heron de Alencar e o físico nuclear Ubirajara Brito. Essa participação dos comunistas no plano internacional se iniciou com a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e a Resistência Francesa (1940-1944), quando vários militantes combateram o antifascismo lá fora. Convém relembrar ainda, nesse período, o ingresso de vários comunistas na Força Expedicionária Brasileira, quando se engajaram contra os nazistas nos campos da Itália. Outro importante destaque: o bloco hoje Afoxé Filhos de Gandhy, criado por estivadores de Salvador, em 1949, teve a participação comunista. Formado unicamente por homens, inspirou-se nos princípios pacifistas do indiano Mahatma Gandhi e, dois anos mais tarde, introduziu músicas afros em seu repertório.

6- O PCB colaborou de forma efetiva para elaboração e aplicação do Plano de Metas do Governo JK, o qual abriria o caminho para a industrialização mais acelerada do país. O economista Ignácio Rangel, um veterano das lutas da década de 30 no Estado do Maranhão foi, ao lado de Celso Furtado, um dos artífices desse Plano.

7- Como abordar a cultura brasileira sem este Partido?

Como escrever a história da nossa literatura sem Aníbal Machado, Bandeira Tribuzi, Bernardo Élis, Ciro Martins, Dalcídio Jurandir, Dionélio Machado, Ferreira Gullar, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Manoel de Barros, Orígenes Lessa, Oswald de Andrade, Patricia Galvão (Pagu), Paulo Leminski, Rachel de Queiroz, Rafael de Carvalho, Raimundo Sousa Dantas, Sábato Magaldi, Samuel Rawet e Solano Trindade?

Ou das nossas artes plásticas e cênicas sem Abelardo da Hora, Alex Viany, Alinor Azevedo, Anna de Holanda, Antonio Luiz Mendes Soares, Aparecida Azedo, Armando Costa, Bete Mendes, Bráulio Pedroso, Bruno Giorgi, Cândido Portinari, Carlos Scliar, Denoy de Oliveira, Di Calvalcanti, Edgar Graeff, Gisele Santoro, Iberê Camargo, Ítala Nandi, Jalusa Barcellos, Joacir de Castro, João Batista de Andrade, João Câmara, Joel Barcellos, José Pancetti, Leon Hirszman, Lima Duarte, Lina Bo Bardi, Mário Gruber, Nelson Pereira dos Santos, Oscar Niemeyer, Renina Katz, Rui Santos, Silvio Tendler, Siron Franco, Tarsila do Amaral, Villanova Artigas, Vladimir Carvalho, e Waldomiro de Deus?

Da nossa música sem Arnaldo Estrela, Camargo Guarnieri, Carlos Lira, Cláudio Santoro, Dolores Duran, Guerra Peixe, Jararaca, Jards Macalé, João do Vale, Jorge Goulart, José Carlos Capinam, José Siqueira, Noca da Portela, Noel Rosa, Nora Nei, Luiz Gonzaga Júnior (Gonzaguinha), Paulinho da Viola, Rildo Hora e Tom Zé?

Do nosso teatro e da televisão sem Bemvindo Siqueira, Dias Gomes, Dina Sfat, Fernando Peixoto, Flávio Rangel, Gianfrancesco Guarnieri, Glauce Rocha, José Wilker, Juca de Oliveira, Mário Lago, Oduvaldo Viana Filho, Paulo Gracindo, Paulo José, Paulo Pontes, Plínio Marcos, Procópio Ferreira, Raul Cortez, Stênio Garcia e Stepan Nercessian?

Do nosso movimento editorial sem Ênio Silveira, Moacyr Felix, Raul Mateos Castell e Renato Guimarães?

Do nosso jornalismo sem a presença de Aimoré de Paula Souza, Álvaro Moreyra, Amarílio Vasconcelos, Ancelmo Góis, Antonieta Santos, Antonio Morais Né, Antonio Romane, Aparício Torelly (Barão de Itararé), Arcelina Mochel, Aristélio de Andrade, Arthur José Poerner, Beatriz Bonfim, Carlos Eduardo Ullup, Carlos Jurandir, Célia Maria Ladeira, o cartunista Claudio de Oliveira, Danúbio Rodrigues, Davi Emerich, Derly Barreto, Dias da Costa, Domar Campos, Durval Aires, Elias Fajardo da Fonseca, Elio Gaspari, Eneida de Moraes, Eugênia Moreira, Eugênio Viola, Nilton Santos Fragmon Carlos Borges, Francisco Inácio de Almeida, George Duque Estrada, Hélio Contreiras, Henrique Caban, Henrique Cordeiro, Henrique Miranda, Ivan Alves, Jaime Miranda, Jairo Regis, Jarbas Marques, João Antonio Mesplé, João Batista Aveline, Justino Martins, Leo Guanabara, Lu Fernandes, Luciano Barreira, Luiz Carlos Azedo, Luiz Fernando Cardoso, Luiz Mario Gazzaneo, Marcelo Bairão, Marcus Miranda, Maria da Graça Dutra, Mariza Campos da Paz, Maurício Azedo, Mauro Malin, Mauro Santayana, Miguel Borges, Milton Coelho da Graça, Moacir Werneck de Castro, Narceu de Almeida Filho, Nilton Santos, Noé Gertel, Odalves Lima, Orlando Bonfim Júnior, Orlando Farias, Oswaldo Peralva, Otávio Malta, Paulo Markun, Paulo Motta Lima, Pedro Motta Lima, Raul Azedo, Raul Mateos Castell, Roberto Müller, Roberto Pontual, Rodolfo Konder, Roniwalter Jatobá, Sérgio Cabral, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), Teixeira Heizer,Tibério Canuto, Vicente Dianezi Filho, Vladimir Herzog e Walter da Silveira?

Da nossa ensaística sem Aluísio Medeiros, Astrojildo Pereira, Carlos Nelson Coutinho, Elias Chaves Neto, Emílio Carrera Guerra, Fausto Cupertino, Ivan Pedro de Martins, José Paulo Paes, José Paulo Netto, Leandro Konder, Luiz Saia, Luiz Sérgio Henriques, Marco Aurélio Nogueira, Mário Pedrosa, Martin Cézar Feijó, Michel Zaidan, Paulo Mercadante, Paulo Ribeiro Cunha, Quirino Campofiorito e Rodrigo Patto Sá Motta?

E como escrever a história das nossas ciências sociais sem Alberto Passos Guimarães, Alcides Ribeiro Soares, Amaro Quincas, Caio Prado Júnior, Cícero Péricles de Carvalho, Clóvis Moura, Darcy Ribeiro, Décio Freitas, Dirceu Lindoso, Edison Carneiro, Jacob Gorender, Joel Rufino dos Santos, Leôncio Basbaum, Luiz Werneck Vianna, Marly Vianna, Nelson Werneck Sodré, Roland Corbisier, Rui Facó, Sérgio Faraco e Souza Barros?

Da Academia e dos organismos de pesquisa sem Abguar Bastos, Adão Pereira Nunes, Alexis Stepanenko, Aloísio Teixeira, Amílcar Baiardi, Antonio Carlos Máximo, Antônio Carlos Peixoto, Antonio Lousada, Antonio Paim, Aspásia Camargo, Caetano Araújo, Caiuby Alves da Costa, Celso Frederico, Cesar Maia, Edgar Carone, Eduardo Rocha, Elias Chaves Neto, Emílio Carrera Guerra, Eurico Figueiredo, Flávio Kothe, Gastão Weyne, Geraldo de Souza Tomé, George Gurgel de Oliveira, Gildo Marçal Brandão, Haiti Moussatché, Hamilton Garcia, Heron de Alencar, Horácio Macedo, Isaac Scheiwart, Ivan Pedro de Martins, Ivan Ribeiro Filho, Jacob Kligerman, Joel Teodósio, José Antonio Segatto, José Cláudio Barrighelli, José Nilo Tavares, Josué Almeida, Lúcia Hippólito, Luís Mir, Luiz Hildebrando Pereira da Silva, Manoel Martins Junior, Maria Amélia Hamburger, Maria José Feres, Mário Pedrosa, Mário Schemberg, Milton Lahuerta, Moisés Fuks, Osvaldo Evandro Carneiro Martins, Paulo César Nascimento, Paulo de Camargo e Almeida, Paulo Fábio Dantas Neto, Raimundo Jorge, Raimundo Nonato dos Santos, Raymundo de Oliveira, Rubem César Fernandes, Samuel Pessoa, Sérgio Bessermann Vianna, Sérgio Grando, Socorro Ferraz, Ubirajara Brito e Yara Brayner Mattos?

8- Da esfera jurídica sem Aluisio Gurgel, Américo Barreira, Arlindo Fernandes de Oliveira, Eros Grau, Félix Valois, Herman Baeta, Humberto Jansen, José Carlos Arouca, José Paiva Filho, Marcello Cerqueira, Modesto da Silveira, Paulo Saboia, Sinval Palmeira, Tarcísio Leitão, Vasco Damasceno Weyne e Wanda Sidou?

9- O que dizer dos embates travados na cena sindical sem a participação de comunistas como Agostinho Dias de Oliveira, Alberto Galeno, Alberto Santos, Aloisio Filgueiras, Aloísio Palhano, Aluisio Medeiros, Anário Batista de Carvalho, Antenor de Souza Caldas, Antogildo Paschoal Viana, Antonio Chamorro, Antonio Eurico de Queiroz, Antonio Pereira da Silva Filho, Apolonio de Carvalho, Arildo Dória, Armando Mazzo, Armando Ziller, Arnaldo Santos, Carlos Jatay, Chico Andrade, Claudino José da Silva, David Zaia, Demistóclides Batista (o Batistinha), Expedito Rocha, Francisco Gomes (Chiquinho), Francisco Pereira, Geraldo Rodrigues dos Santos, Gregório Bezerra, Hércules Corrêa dos Reis, Humberto Archibald Campbel, Itair José Veloso, Ivan Pinheiro, Jair Simões, João Farias de Souza (Caboclinho), João Massena Melo, José Augusto de Souza Rodrigues (Guto), José dos Santos Serra, José Ferreira da Silva (Frei Chico), José Francisco Oliveira, José Leandro, José Maria Bonfante, José Maria Platilha, José Pereira de Oliveira (Macarrão), José Raimundo da Silva, José Simões, José Viegas, José Waldir de Aquino, Laura Mangueira, Lauro Brígido Garcia, Lindolfo Silva, Luiz Antônio Martins (Gato), Luiz Tenório de Lima, Luiz Viégas da Mota Lima, Manoel Aeri Ferreira, Manoel Coelho Raposo, Manoel Fiel Filho, Marcos Andreotti, Maria Sallas, Mário Albuquerque, Mário Grazini, Moacir Longo, Moura Beleza, Nestor Veras, Odilon Niskier, Olympio Fernandes de Mello, Oswaldo Pacheco, Pedro Albuquerque, Rafael Martineli, Ramiro Lucchesi, Roberto Morena, Roberto Percinotto, Vicente Pompeu, Vulpiano Cavalcante e Waldir Cardoso?

Em abril de 1945, foi criado o Movimento dos Trabalhadores Unificados (MUT), que daria surgimento, no ano seguinte, à Confederação dos Trabalhadores do Brasil (CTB), à frente o PCB. Em 1963, formou-se o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). Todos esses movimentos sofreram dura repressão dos governos.

Como não recordar, por exemplo, que, na esteira da grande greve de 1957, o Partido proporia a adoção do 13º salário por intermédio de Roberto Morena? Como ignorar a ação dos comunistas na criação da União Nacional dos Estudantes (UNE), ainda nos anos 30, sob a ditadura Vargas? Ou do CPC (Centro Popular de Cultura) da própria UNE, nos anos 60?

10- Dos movimentos sociais e em defesa dos direitos das mulheres, dos negros e índios sem Abgail Páscoa, Adoração Vilar, Ailton Benedito de Souza, Alciléia Morena, Aldaísa Bonavides, Almira Rodrigues, Ana Montenegro, Antonieta Campos da Paz, Arabela Pereira, Barbara Feitosa, Beatriz Riff, Berta Ribeiro, Carlos Alberto Caó de Oliveira, Carlos Moreira, Chico e Apoena Meirelles, Eduardo Galvão, Elisa Branco, Guiomar Monteiro, Helena Bessermann Vianna, Heloneida Studart, Irina Storni, Jane Neves, Laudelina de Campos Mello, Leda Santos, Maria Aragão, Maria Brandão dos Reis, Maria Werneck de Castro, Marcos Terena, Naíde Teodósio, Nise da Silveira, Noel Nutels, Zuleika Alambert e Zulu Araújo?

11- Como desconhecer que, por sugestão do cientista paulista Luiz Hildebrando Pereira da Silva, deu-se a criação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), provavelmente o mais importante órgão de pesquisa do Brasil?

12- É preciso lembrar sempre que a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) foi, em boa parte, obra dos comunistas inscrita na Constituição de 1988. Tiveram um papel decisivo aí os médicos sanitaristas Sérgio Arouca e David Capistrano Filho.

13- Apesar de não ter usufruído de muitos anos de legalidade, o PCB também teve uma atuação parlamentar importante. Apresento nomes como Adão Pereira Nunes, Alberto Goldmann, Alberto Rajão, Alísio Mamede, Álvaro Ventura, Antonio Resk, Arnaldo Jordy, Arthur Virgílio, Augusto Carvalho, Byron Sarinho, Carlos Alberto Lima Torres, Carlos Marighella, David Lerer, Fabiano Villanova, Fausto Matogrosso, Fernando Sant’Anna, Giocondo Dias, Gregório Bezerra, Hugo Martins, João Falcão, Jorge Amado, José Júlio Cavalcante, José Marinho de Vasconcelos, José Pontes Neto, Lauro Brígido Garcia, Luiz Carlos Prestes, Luiz Paulo Velloso Lucas, Manuel Campos da Paz, Marcelo Cerqueira, Marco Antonio Coelho, Modesto da Silveira, Myrthes Bevilacqua, Otávio da Silveira, Roberto Freire, Roberto Morena, Sérgio Arouca e Sinval Palmeira. Todos deram digna contribuição ao campo legislativo.

14- O PCB marcou presença também no esporte, onde, para além da figura de João Saldanha que organizou a Seleção Brasileira de 1970, que foi campeã da Copa do Mundo naquele ano, posso citar ainda os nomes dos jogadores Leônidas da Silva (o Diamante Negro) e Didi, o criador da “folha seca”.

15- E é impossível não rememorar lutadores como Abelardo Caminha, Abílio Fernandes, Adalberto Timóteo da Silva, Admar Faria Lima, Agildo Barata, Alberto Aleixo, Alberto Negri, Almir Matos, Aloysio Nunes Ferreira, Amaro Valentim, Ana Baptista, Ananias Macedo, Ângelo Arroyo, Aníbal Bonavides, Anita Prestes, Anivaldo Miranda, Antonio Carlos Mazzeo, Antonio dos Santos Teixeira, Antônio Fausto do Nascimento, Antônio Gonçalves Filho, Apolônio de Carvalho, Aristeu Nogueira, Armando Sampaio, Armênio Guedes, Arnaldo Jordy, Augusto Schmidt Pinto, Calil Chade, Cândido Feitosa, Carlos Alberto Frank (Cabo Frank), Carlos Danielli, Carlos Eduardo Fernandes (Hepatite), Carmelino Resende, Célio Guedes, Cristiano Cordeiro, David Capistrano, David Capistrano Filho, Dina Lida Kinoshita, Dinarco Reis, Dinarco Reis Filho, Dino Gomes, Diógenes de Arruda Câmara, Dulce Rosa de Bacellar Rocque, Ederval Araújo Xavier (Poly), Edmilsa de Souza Costa, Eduardo José Santiago (Dida), Elson Costa, Eraldo Bulhões, Estevão Martins, Euvaldo Leda (Cabo Velho), Everardo Dias, Fernando Lacerda, Francisco Inácio de Almeida, Francisco José Pereira, Geraldo Campelo, Geraldo Campos, Gerson Mascarenhas, Gilson Leão, Gilvan Cavalcante, Givaldo Siqueira, Graziela Melo, Heitor Casaes, Heitor Ferreira Lima, Henrique Cordeiro, Hiram de Lima Pereira, Irun Santana, Isnard Teixeira, Ivan Ribeiro, Jackson Barreto, Jarbas de Holanda, João Amazonas, Joaquim Câmara Ferreira, Jocelyn Brasil, Jorge Espechit, José Ferreira de Almeida, José Maria Crispim, José Maria Monteiro, José Maximino de Amarante Neto, José Montenegro de Lima (Magrão), José Roman, José Sales, Juarez (Juca) Amorim, Juca Ferreira, Kunio Suzuki, Laurinha Mangueira, Lauro Gurgel de Oliveira, Lauro Reginaldo da Rocha (Bangu), Leivas Otero, Lícia Canindé (Ruça), Lincoln Oeste, Lourival Costa Vilar, Luiz Carlos Prestes Filho, Luiz Fernando Contreiras, Luiz Inácio Maranhão Filho, Luzia Ferreira, Márcio Araujo, Marcos Jaimovich, Maria Prestes, Mário Alves, Maurício Grabois, Mauricio Seidl, Milton Cayres de Brito, Minervino de Oliveira, Moisés Vinhas, Nelson Goulart, Octávio Brandão, Onofre da Costa Filho, Orestes Timbaúba, Orlando Bonfim Junior, Paulo Elisiário Nunes, Pedro Jerônimo de Souza, Pedro Pomar, Pretextato José da Cruz, Rafael Martinelli, Raimundo Alves de Souza, Raimundo Damásio (Dedé), Raimundo Jinkings, Raul Jungmann, Regis Cavalcante, Regis Fratti, Renato Oliveira da Motta, Robespierre Teixeira, Rogério ‘Senador”, Rolando Fratti, Romero Figueiredo, Rui Barata, Salomão Malina, Sérgio Augusto de Moraes, Sérgio Holmos, Sinhá Vera, Takao Amano, Tarcísio Leitão, Ulrich Hoffman, Valério Konder, Walter Ribeiro, Wellington Mangueira, William Moreira Lima, Zélia Magalhães e Zuleide Faria de Mello. Alguns ainda em plena atividade.

A lista é extensa, embora incompleta, sei disso.

O PCB teve milhares de militantes assassinados e torturados. Representante do que o nosso Humanismo teve de melhor, esta trajetória é parte integrante da construção de um Brasil mais fraterno, justo, próspero e democrático, sem as mazelas que tanto nos tem atingido. Precisamos, mais do que nunca, resgatar esta sua rica experiência.

O Partido cometeu, naturalmente, muitos equívocos. Demorou a se afastar da política obreirista. Organizou o Levante de 1935. Fechou os olhos para as limitações democráticas de países que se reivindicavam socialistas. Apoiou um Manifesto de Agosto anacrônico já nos anos 1950. Mesmo assim teve mais acertos do que erros.

Os comunistas nunca se envolveram em corrupção ou desvio de dinheiro público. Estiveram presentes em praticamente todas as frentes de luta. E ninguém pode tirar isso do Partido. Pertence à nossa História. O PCB compõe uma espécie de memória sensitiva do povo brasileiro. Uma escola política sem paralelo, talvez, no século XX, no país. Seus militantes buscavam o que era comum – os pontos de união - sem abrir mão do que lhes era peculiar. O Partido nos ajudou a desvendar o Brasil para melhor transformá-lo. Lutou obstinadamente contra todas as ditaduras que enlutaram o Brasil ao longo do século XX. Os comunistas apoiaram políticas aliancistas durante décadas a fio. E isso desde a formação do Bloco Operário e Camponês, no final dos anos 20, até a aliança com os liberais-democratas para derrotar a ditadura de 1964. Estou convencido de que precisamos novamente da sensibilidade que o PCB sempre dedicou ao mundo do trabalho. Um mundo que não se restringe mais ao chão das fábricas, ganhando literalmente o chão das ruas das cidades. É fundamental reunir os trabalhadores incluídos e os excluídos, colocados à margem dos direitos sociais. Até para evitar que sirvam de massa de manobra para demagogos ou fascistas e populistas de todo tipo. É aí que a cidadania tem um grande papel histórico a cumprir. O velho comunista Salomão Malina chamava constantemente a atenção para isso.

As mudanças dependem do processo histórico, isto é, estão alicerçadas em relações sociais precisas. Isto vai além da vontade de personalidades ou mesmo de partidos. As condições objetivas existem. Mas, no limite desse processo ou dessas condições objetivas, os comunistas não mediram esforços para mudar o Brasil.

Apesar de nunca terem estado no poder central, os comunistas fizeram muito mais do que isso: arejaram a sociedade com suas ideias e ações. Tiveram o Brasil como missão. Sempre ficaram ao lado do povo nas lutas pela cidadania. Caminharam da sociedade para o Estado. Este o seu ponto de partida. E a sociedade é sempre maior que o Estado. Outros grupos empalmaram o Estado e pouco fizeram pela sociedade. A trajetória do PCB nos lembra que hegemonia é condução de processo. As bandeiras desfraldadas inicialmente pelo Partido tornaram-se bandeiras nacionais. Apesar das perseguições que sofreu e das inúmeras divisões internas que teve, o Partido deixou uma marca incontestável na vida nacional.

Como disse o poeta Ferreira Gullar, não se pode escrever a história do Brasil sem o PCB ou estaríamos mentindo.

*Ivan Alves Filho é historiador, autor de mais de uma dezena de livros em que se destacam O Memorial de Palmares e O caminho do alferes Tiradentes


Ivan Alves Filho: Do PCB ao Cidadania 23

O ano de 1922 foi central para o entendimento do Brasil. Nele tivemos a Semana de Arte Moderna, o surgimento das reivindicações feministas, o início do que se convencionaria denominar por Tenentismo e, ainda, a criação da Seção Brasileira da Internacional Comunista. Um ano de cortar o fôlego.

Provavelmente, o centenário da Independência obrigou o país a se repensar. O Partido Comunista surgia como uma agremiação ao mesmo tempo nacional, isto é, buscando o
enraizamento no país, e internacional, na esteira dos acontecimentos que sacudiam a Rússia em 1917.

O enraizamento interno tinha que ver com sua condição de partido da classe trabalhadora. Mas,rapidamente, já no final dos anos vinte, o Partido percebia que não poderia praticar uma política de class e contra classe. O Brasil se diversificava, apresentando uma conformação social mais sofisticada e complexa. Ao lado da classe operária e do campesinato despontava uma nova camada, composta pelos setores médios. Eis o que abria a via para o diálogo com intelectuais e militares, por exemplo. Astrojildo Pereira foi o grande artífice dessa primeira grande mudança. Outras viriam, tão profundas quanto essa.

Após atravessar a repressão do Estado Novo de Vargas e as vicissitudes da chamada Guerra Fria, os comunistas do PCB mudam novamente, acrescentando a seu ideário a questão democrática. Isso se deu com a Declaração de Março de 58. Não por acaso, seu principal redator seria Armênio Guedes, o dirigente mais próximo de Astrojildo. Foi com esse espírito que o PCB evitou o esfacelamento por ocasião da ditadura militar. Apostando na aliança com os liberais e na luta de massas, o Partido apontou o caminho, jogando suas fichas na derrota e não na derrubada do regime. A História daria razão ao PCB.

Surgido no bojo das batalhas travadas pela Rússia Soviética, o PCB passaria por nova transformação após o esgotamento do chamado socialismo real. Sabendo tirar as lições do fim da União Soviética e do processo iniciado em 1917, os comunistas brasileiros mudam o nome do partido e abandonaram seu símbolo, a foice e martelo. Mudaram o partido e não de Partido. Nascia o PPS em 1992. Ou seja, souberam preservar suas partes vivas, a saber a ética, a democracia e a noção de justiça social. Essa a maior herança do comunismo brasileiro. Mais do que qualquer outro partido, o PCB organizou o mundo do trabalho, lutou pela cultura nacional e integrou o bom combate pela democracia. Esse o seu grande legado.

Hoje, mais uma mudança. Surge em cena o Cidadania 23. Em tempos de profundas mudanças no aparato produtivo e no modo de vida das pessoas, o PPS estabeleceria vínculos com os movimentos surgidos nas ruas, em 2013. Muitos eram de corte liberal. O Partido entendeu que o liberalismo era uma conquista do processo civilizatório, afirmando o papel do indivíduo perante o Estado. Eis o que não entrava em contradição com os direitos sociais que os comunistas sempre defenderam.

Terminei, precisamente hoje, um novo livro: A saída pela Democracia. Em um dos seus últimos parágrafos escrevo o que se segue: Penso que um denominador comum possível seja a cidadania. Seu vínculo com o mundo do trabalho pode ser feito por intermédio da Constituição. Sua ligação com cada um de nós, individualmente falando,pode ser realizada por meio das lutas identitárias, incluindo aí a cultura como pertencimento. Seu elo com as liberdades pode se dar pela defesa dos direitos de ir e vir das pessoas. A cidadania pode ser o grande fator estruturante da participação popular pelas mudanças. Ela perpassa o sistema de classes; como conquista do processo civilizatório não é monopólio de classe alguma. É um patrimônio de todos.

Ivan Alves Filho é historiador.


RPD || Ivan Alves Filho: A mão e o mistério

Considerada Patrimônio Mundial da Unesco, a Gruta de Lascaux possui pinturas rupestres com cerca de 20 mil anos, acreditam alguns cientistas. Ela foi descoberta em 12 de setembro de 1940 por quatro adolescentes 

O que significa, exatamente, aquela mão impressa numa gruta de Lascaux, no interior da França? Será que alguém sabe dizer ao certo? Estamos diante de mais um daqueles mistérios insondáveis da Humanidade?

Em todo caso, a questão sempre me fascinou. Penso em várias hipóteses. Primeiro, o homem teria percebido que a mão o diferenciava dos animais. Daí o destaque dado a ela. Afinal, ele era o único ser a ficar de pé, com as mãos liberadas, portanto. E o raio de visão consideravelmente ampliado. As datas calculadas pelos arqueólogos para a idade das pinturas rupestres de Lascaux se aproximam dos 30 mil anos, época em que o homem já era perfeitamente homo sapiens erectus. Faz certo sentido.

Vamos prosseguindo. Outra hipótese implicaria aceitar que o homem quis legar para a posteridade um testemunho de sua passagem por esse vasto mundo de Deus. Como se, subitamente tomado de uma consciência de indivíduo, ele se dispusesse a comunicar, transmitir, registrar sua humanidade àqueles que fatalmente lhe sucederiam. Por que não? A consciência humana em gestação revelava, assim, que o homem não era imortal. E a pintura o teria auxiliado a expressar isso, a deixar sua marca para o futuro. Ou seja, nós. É razoável pensar assim. Nascia o mundo do simbólico, que também nos diferencia dos animais. Karl Marx chegou a dizer que o pior dos arquitetos é superior à melhor das abelhas por fazer uso de sua imaginação.

Mais uma hipótese seria buscar no gesto do homem que estampava sua mão nas paredes de uma rocha a necessidade de compreender, ainda que de forma confusa ou embrionária, sua exterioridade em relação ao meio. O homem e sua imagem ganhavam então o mundo. Razoável também, não é?    É possível imaginar ainda que, com seu gesto, o homem pretendesse fazer arte, isto é, embelezar o ambiente que o cercava. A coisa também faz algum sentido.

Ou, então, descartaríamos todas essas possibilidades. Nesse caso, poderíamos imaginar que a mão de Lascaux era simplesmente a mão de Lascaux. E nada mais.

Confesso que essa última hipótese é a que mais me atrai – mesmo que não seja, forçosamente, a mais consistente. Ainda que não faça lá muito sentido.

Mas será que o mistério faz?

 

 


Compre na Amazon: Livro Presença Negra no Brasil destaca importância de afrodescendentes para o país

De autoria de Ivan Alves Filho, obra apresenta análise histórica e registra busca de autoafirmação e inclusão social

Cleomar Almeida, assessor de comunicação da FAP

O Brasil é um dos países mais expressivos da comunidade internacional e “o segundo país negro do mundo, com dezenas de milhões de afrodescendentes”. A declaração é resultado de uma profunda análise realizada pelo historiador Ivan Alves Filho e integra a apresentação do livro Presença Negra no Brasil: do século XVI ao início do século XXI. À venda no site da Amazon, a mais recente obra do autor carioca é coeditada pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira) e Verbena Editora.

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Presença Negra no Brasil alinha, ao longo de 200 páginas e em seis partes (cada uma delas referente a um século, especificamente) os fatos historiográficos relacionados à contribuição negra ao Brasil. A ordem cronológica, de acordo com as editoras, tem caráter didático para o leitor.

Em um trecho inicial do livro, Ivan Alves Filho diz que a cronologia do negro no Brasil representa um instrumento útil para o conhecimento e a transformação do país, em particular de sua população afrodescendente. “Certamente, prestará um importante auxílio aos estudantes, professores e pesquisadores da realidade brasileira, aos responsáveis pelas empresas públicas e privadas e aos comunicadores sociais e ativistas sociais e culturais”, escreve.

O autor lembra que, no século XVI, o tráfico de negros se impunha cada vez mais. “As questões relativas a rebeliões negras começavam a vir à baila. Se, em 1570, o cronista português Pero Magalhães de Gandavo afirmava que os escravos negros, contrariamente aos índios, não se arriscavam a se rebelar ‘por não terem para onde ir’, o que se verificaria, em seguida, é que tal situação não se sustentaria por muito tempo”, observa ele.

Escravismo no Brasil

Ivan Alves Filho acrescenta que o século XVII foi o da consolidação do escravismo no Brasil. Já o século XVIII se inicia, segundo ele, com uma notícia surpreendente, ou seja, em 1704, cerca de cinquenta africanos tentam fugir da Bahia e retornar à África. “Trata-se, provavelmente, de uma das primeiras tentativas, nesse sentido, partindo da Colônia. Era uma reação à escravidão. Mas as autoridades coloniais continuavam com seu comportamento obscurantista”, acentua o autor.

Mais adiante no livro, Ivan Alves Filho observa que o século XIX foi “o século revolucionário por excelência no Brasil”. De acordo com ele, o período se iniciou com a chegada da família real ao país, em 1808, e se encerrou com a abolição da escravatura, em 1888. “E entre estas duas grandes datas, deu-se a independência política do país, em 1822. Um século e tanto”, assevera o autor.

E 1888 é exatamente o ano escolhido por Ivan Alves Filho para detalhar, a partir de então, ano a ano, separadamente, os principais fatos relacionados ao negro no Brasil até 2018. Na prática, funciona como um valioso manual sobre o assunto.

Do ano 2018, por exemplo, ele destaca o assassinato da vereadora negra Marielle Franco (PSol-RJ). “O Brasil todo ficou estarrecido com o assassinato da vereadora Marielle Franco, defensora dos direitos humanos e da população das favelas do Rio de Janeiro”, lembra, para continuar: “O crime que vitimou a representante do Partido do Socialismo e da Liberdade (PSol) ocorreu na noite de 14 de março, no Centro do Rio, e soou como um desafio à intervenção federal no Estado. Socióloga, política, negra, Marielle se transformou em um símbolo das lutas cidadãs no país”.

Com prefácio do advogado Nei Lopes, que também é autor de contos, peças teatrais e romances, o livro destaca que “os descendentes dos antigos escravos buscaram autoafirmação e inclusão social por meio de suas práticas culturais”.

Ainda de acordo com Lopes, que é compositor popular e autor de dicionários e obras históricas, o livro Presença Negra no Brasil é “decisivamente mais um golpe certeiro na derrubada da odiosa parede que recalca e reduz a importância da presença afro originada na construção da hoje solapada civilização brasileira”.

Sobre Ivan Alves Filho

Nascido no Rio de Janeiro, em 1952, é diplomado pela Universidade Paris VIII e pós-graduado pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris. É autor de livros como Brasil, 500 anos em documentos, Memorial dos Palmares, História dos estados brasileiros, Giocondo Dias – Uma vida na clandestinidade e Velho Chico Mineiro.

Exerceu o jornalismo desde a primeira metade dos anos 1970 e colaborou em cerca de 20 publicações brasileiras. Editou algumas delas, entre as quais suplementos culturais de jornais e publicações como Guia do Terceiro Mundo (posteriormente Guia do Mundo, lançado em português, espanhol e inglês).

Em diferentes momentos, atuou como pesquisador associado de órgãos como o Centro de Memória da Associação Brasileira de Imprensa, o Centro de Memória Social Brasileira, o Núcleo de Pesquisas sobre o Índio Brasileiro, o Comitê Português do projeto Unesco “A Rota do Escravo” e o Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos”. Foi professor de história e economia política e ministra conferências histórias no Brasil e no exterior.

Como documentarista, produziu vários filmes no quadro da série Brasileiros e Militantes, da Fundação Astrojildo Pereira. Além disso, dirigiu e apresentou programas sobre cultura brasileira em emissoras de rádio e foi editor do jornal eletrônico Vertente Cultural.

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‘Bach fez nosso planeta soar de outra maneira’, escreve Ivan Alves Filho na Política Democrática de dezembro

Historiador diz, em artigo publicado na revista da FAP, que músico alemão era ‘homem de luta’

Cleomar Almeida, assessor de comunicação da FAP

“Johann Sebastian Bach é, para muitos, o maior nome da música em todos os tempos. Mestre do contraponto, o músico alemão fez nosso planeta soar de outra maneira”. A análise é do historiador Ivan Alves Filho, em artigo de sua autoria publicado na revista Política Democrática online de dezembro. Todos os conteúdos da revista podem ser acessados, gratuitamente, pelo site da FAP (Fundação Astrojildo Pereira).

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De acordo com o historiador, Bach era um fervoroso protestante, originário de uma família de músicos. “Religião e arte faziam parte do seu corpo, como sangue e ossos”, afirma. “A darmos crédito a um depoimento, a tocar órgão, Bach corria sobre os pedais como se seus pés tivessem asas, fazendo o instrumento ressoar de tal maneira que quase se diria ouvir uma tempestade”, acrescenta.

Bach, segundo Ivan, era “um homem de luta”. “O Duque de Weimar chegou a mandar prendê-lo, porque o músico insistia em deixar a cidade em busca de melhores condições de trabalho. Obstinado, Bach não cedeu às pressões do Duque e ainda concebeu, na prisão, o Peque no Livro do Órgão”, lembra.

Ivan diz que, toda vez que ouve algo de Johann Sebastian Bach, firma a convicção de que sua música - de tão tensa, retorcida, obcecada até - não cabe completamente nos limites das notas musicais. “Na verdade, Bach nos remete a um som que extrapola ou atropela tudo”, afirma.

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